Morfeu de Nova Pádua

Abril/16.

Maurício Voigt Furtado Ribeiro, Engenheiro Agrônomo, especialização em Finanças e Vitivinicultura, ex-aluno do Colégio Militar em Porto Alegre, fez carreira no segmento bancário. Conhecedor da Agricultura e Cadeia Alimentar, estudioso da região clássica do Pinot noir da Borgonha na França. Ao lado da esposa, Cris Barros, vislumbram o sonho de viver do trabalho majoritariamente agrícola de fazer vinho em Nova Pádua/RS. Região de altitude, 750metros, conjugando o maior número de horas de frio com o menor risco de geada e o menor excesso hídrico da Serra Gaúcha. Maurício cita em seus comunicados digitais: “Atualmente somos agricultores em tempo integral e vivemos exclusivamente do fruto de nosso trabalho nos 2 hectares do Vinhedo Serena, totalmente dedicado ao Pinot noir, há 15 anos – desde 2001. Produzimos apenas um único rótulo – o Serena”. Defensor e praticante do cultivo biodinâmico, testou e maturou por longos anos o aprendizado no campo, na vinha, na adega até a comercialização da sua primeira safra em 2011 com 1.800 vasilhames. Obrigatório a leitura para entendimento http://vinhedoserena.com da ideologia. Descrito como metódico, intelectual, sonhador, apaixonado pelo vinho.

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Adquiri o portfólio completo e vigente do Vinhedo Serena: safras 2011, 2012, 2103 e recentemente divulgado em Fevereiro/16 o Serena NV (non vintage). Não haverá Serena 2014 motivado por qualidade inferior a exigida pelo Maurício decorrente da severidade climática. A próxima safra a ser comercializada atualmente maturando em barrica é a de 2015. A primeira vez que adquiri, os vinhos custavam R$145, a partir do segundo semestre de 2015 foi reajustado para R$175. Em breve haverá novo ajuste de posicionamento justificado desta forma: “…vamos nos posicionar dentro da faixa USD45 e USD65, ao par com produtos deste calibre Pinot noir no Novo Mundo…”, em resposta a e-mails de fechamento comercial que trocamos em Março/16. Na foto acima, da esquerda para a direita: NV, 2011, 2012, 2013… não há especificação da safra no rótulo, só é possível saber devido a impressão na rolha visualmente através da translucides da garrafa, que são vedadas manualmente com cera.

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VINHEDO SERENA N.V. Nova Pádua/RS. 100% Pinot Noir. O produtor informa: “Entrementes recuperamos um numero significativo de garrafas da safra 2010, que estavam esquecidas aguardando seu momento, debaixo de uma pilha de garrafas das safras subsequentes. Optamos por ampliar a palheta deste 2010 com adições pontuais de vinhos de reserva das safras 2005, 2009, 2012, 2013, 2014 e 2015 e criar uma partida N. V. (Non Vintage). Apenas 100 caixas.” Feriado de Tiradentes nublado e chuviscando proporcionou momento tranquilo para estrear o conhecimento prático. Garrafa e rolha de excelente espessura e acabamento. O calor da tarde em 28º demandou resfriamento do vasilhame. Na cor é vermelho cereja no centro com borda mais clara. Moderadamente turvo, opaco, com finas paserena4rtículas que mantém-se suspensas durante todo o tempo. Discreto nos aromas primários, precisa dedicação para observar aromas selvagens e minerais, materializo a madeira úmida tomada de cupim.  É predominantemente “cru” nos aromas. Econômico na fragrância. No paladar o primeiro ataque é azedo, neste caso não é defeito, lembra o azedo  gastronômico da culinária árabe. Com o tempo, melhor estabilizado e oxigenado torna-se evidente o químico – mix de especiarias diversas em pó. Remota ou nenhuma sensação de açúcar. A esposa é taxativa de que o parentesco é com o cozimento do amido de mandioca, cravo e canela – conhecido como Sagu! O gaúcho sabe que o épico Sagu para o pífio Sagu a diferença é tênue. Sobremesa rústica que em mãos de sabedoria torna-se viciante para amantes de doce que não é tão doce (sempre elejo o feito na Galeteria Don Francesco). O álcool de 11,5º é limpo e sutil. A persistência é moderada esperava um patamar acima. Foge do óbvio, nem o Pinot comercial – um tanto fugaz e frutado; nem a matiz tradicional da escola francesa – elegante e complexo. Tem personalidade própria o que é excelente pois traduz o local sem copiar ou agradar determinada vertente. Imagino que para iniciantes é um vinho que pode gerar estranheza sendo necessário agregar o contexto do projeto. Aos mais experientes ressalva pela carente elegância e ênfase na coragem, determinação e nítido capricho em desafiar limites impostos ao vinho tinto brasileiro. O N.V. está pronto o prazer será imediato muito por conta da safra 2010 ter sido complicadíssima em grande parte do RS. As adições pontuais de outras safras não por acaso. Harmonizamos com massa recheada de cogumelos, trufas e padano, gratinado no molho branco. Ótima oportunidade para elevar o patamar do vinho mas faltou elegância, onde ladeado 2+2=3,5. Deixamos 1/3 para a noite e as características citadas mantiveram-se inalteradas – optamos por bebe-lo desacompanhado. Os vinhos safrados do Serena tem recebido citações entusiastas, imagino ser o armamento pesado, tão logo vamos experimentá-los.  Este N.V. custa R$175 faixa de vinhos nacionais caros o que aumenta a exigência do consumidor. O contexto vinho na taça, ideologia do projeto, capricho da execução vale sim por ambição de conhecimento e cultura, financeiramente hesito em nova aquisição.


AVALIAÇÃO:

4 saca rolha

PREMISSAS:

P3|R5|E5

VALORIZAÇÃO:

1

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