Anton Ego

Jan/16.

Ratatouille® é um longa metragem de animação lançado em 2007, particularmente me cativa a história de Rémy, um rato que vive em Paris e sonha em se tornar um chef de cozinha apesar das forças opostas. O filme aborda o talento e a perseverança.  Faço através deste filme uma analogia ao universo do vinho. Destaco o personagem Anton Ego, enigmático crítico de gastronomia – obviamente temido no seguimento. Especificamente, há uma sequencia no filme onde Anton ao provar o Ratatouille envolto em um déjà vu transcende a sua memória afetiva. Abaixo, a reprodução dos frames desta cena. É inspirador, tocante, silencioso, alimenta a alma.anton-egoDesculpe o spoiler. A cena segue com a narrativa do discurso de Anton Ego a respeito da origem de um artista, com música e voz ao fundo o que torna emocionante o desfecho. Reproduzo a seguir o texto traduzido para o português em que a analogia com o vinho Era dos Ventos Trebbiano On The Rock que provamos hoje se faz presente. Substituí propositalmente palavras chaves tornando o contexto do filme e a minha ocasião fundidos na mesma ideia.

“De várias maneiras, o trabalho de um crítico enófilo é fácil. Nós arriscamos muito pouco e, a despeito disso, desfrutamos de uma vantagem sobre aqueles que submetem seu trabalho, e a si próprios, ao nosso julgamento. Nós nos refestelamos escrevendo crítica opinião negativa, que é divertida de escrever e de ler. Mas a verdade amarga que nós, críticos enófilos, temos que encarar é o fato de que, no grande esquema das coisas, até o lixo medíocre tem mais significado do que a nossa crítica opinião assim o designando. Mas há momentos em que um crítico enófilo verdadeiramente arrisca algo, e isso ocorre na descoberta e na defesa do novo. Noite Manhã passada, eu experimentei algo novo, uma refeição degustação extraordinária preparada por uma fonte singularmente inesperada. Dizer que tanto a refeição o vinho quanto quem a o preparou desafiaram meus preconceitos é uma grosseira simplificação. Ambos me abalaram em meu âmago. No passado, não fiz segredo do meu desdenho pelo famoso lema do Chef Gusteau Dionísio: Qualquer um pode cozinhar vinificar. Mas só agora verdadeiramente percebo o que ele queria dizer. Nem todo mundo pode se tornar um grande artista vinhateiro, mas um grande artista vinhateiro pode vir de qualquer lugar. É difícil imaginar alguém com origem mais humilde do que o gênio agora cozinhando vinificando no restaurante Gusteau’s  Era dos Ventos e quem, na opinião deste crítico enófilo e consumidor, não é nada menos do que o maior chef da França vinhateiro da Serra Gaúcha. Estarei voltando ao Gusteau’s Era dos Ventos em breve, faminto por mais”.

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Resolvemos amanhecer o dia do aniversário do nosso Piá bebericando despretensiosamente observando a alegria e inocência da descoberta dos seus novos brinquedos. Belíssima manhã de Sol e alegria em família, Paz! A ideia inicial seria um Champagne mas preferi a atração que a garrafa nua do Era dos Ventos Trebbiano desprendia a algumas semanas na adega. Segunda oportunidade em provar um vinho do trio L.H.Zanini, Escher e Hermeto.  O primeiro vinho que provei foi tema do post inaugural do Tchêrroir, relembre… aqui. Inquestionável, goste ou não de seus vinhos, o poder de reflexão, fascínio e libertação que os líquidos fermentados desta pequena vinícola conduzem, influenciam e gladiam as opiniões e sensações. Transcende e oportuniza olhar para dentro, autoconhecimento de quem avança no universo dos vinhos. São vasilhames de cultura!rock2

ERA DOS VENTOS TREBBIANO “ON THE ROCK” 2014. Reproduzo o texto que o produtor publicou no Facebook: “Neste ano a Era dos Ventos engarrafou seu segundo vinho elaborado na filosofia dos vinhos laranjas. Depois do Era dos Ventos Peverella, trabalhamos para resgatar mais uma uva trazida com a imigração italiana e que agora corre risco de ser extinta: a Trebbiano. Para valorizar as características naturais da Trebbiano, cultivada nos Caminhos de Pedra, na Serra Gaúcha, os vinhateiros da Era dos Ventos decidiram macerá-la em um lagar de pedra. O resultado é um vinho único, fresco, vivaz, com acidez equilibrada e aromas marcantes. Mais uma bela surpresa vinificada de forma artesanal perfeita para os dias mais quentes trazidos pela Primavera.”

No contra rótulo impresso em cartucho de tinta anos 90 simpática e bem vinda identidade da casa o poema ao vinho.

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Vinho inédito em conceito no Brasil, o lagar foi construído exclusivamente para este fim em pedra Basalto que é fortaleza e isolamento térmico das casas dos “Gringos”. Engana-se quem acredita que o calor é elemento físico estrangeiro na Serra Gaúcha, este Trebbiano resgata esta particularidade íntima de quem conhece o Rio Grande do Sul, daqui ou visitante sabe que no Verão abrigar-se do calor é obrigatório e permissivo refrescantemente ébrio reidratar-se no porão ou na sombra do Plátano. Na taça o vinho é turvo com sedimentos finos. Em longo repouso as partículas se desprendem com enorme facilidade e transformam-se em “chumbada” devido a nenhuma colagem ou filtragem. Cor de Australian Gold® é sexy! O álcool de 11º é convidativo a hidratação – aproveite com moderação. Aromas e texameixaamarelatura é de chá da vovó contra a gripe: infusão de água, casca de laranja, cravo, erva-cidreira e mel. Resfrie, coloque pedras de gelo e “On the rock”! Apenas 500 vasilhames limitados deste Vick Pyrena® para amantes do vinho. E o momento Anton Ego? No sorver da primeira taça vivenciei os frames do Anton e o Ratatouille no meu cenário particular. A memória da minha adolescência no sítio com os primos aventurando mais do que colhendo nos frondosos pés de goiaba, caqui, abacate e ameixa amarela (imagem a esquerda). Meu olhar fixo no vazio assisti dentro dos meus próprios olhos a memória do cheiro, gosto, textura da ameixa amarela com aquele azedinho doce, pelugem fina da casca, leve tanino da semente e minha Mãe gritando: “parem de comer isso sem lavar!” Experimentávamos a natureza no seu habitat. Com o passar dos anos o pé de ameixa  deu lugar ao concreto da urbanização que todo sítio gentilmente sede espaço. Ficou a lembrança pois nunca mais desfrutei de uma ameixa amarela. Até hoje. Obrigado Era dos Ventos! Um enorme vinho da alma destas terras, destas pedras, destas pessoas que tem o tamanho dos nossos mais secretos sonhos. Preço de R$98.


AVALIAÇÃO:

Selo Tchêrroir

PREMISSAS:

P2|R6|E4

VALORIZAÇÃO:

1

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