Belo Certame

Julho/15.

Poderia ser clássico Baguá, Caju, BraPel, Grenal, mas é o certame das Serras: Gaúcha x Sudeste Gaúcho. Duas vinícolas tradicionais Boscato em Nova Pádua e Lidio Carraro no Vale dos Vinhedos. O clima da Serra Gaúcha é muito traiçoeiro (umidade, precipitações, menor luminosidade) especialmente para os tintos e particularmente para as cepas que precisam de longa maturação. Em contrapartida na Serra do Sudeste o clima é mais previsível (seco, estiagem, maior lumunosidade) favorável a arriscar com a fruta no pé aguardando o momento adequado. Obviamente que são características macro, as micro parcelas de terroir e safras podem afetar este contexto agressivamente tornando as cartas, ora previsíveis, bem embaralhadas. mapa-vinhos-rsO certame proposto tem por objetivo experimentar o trabalho realizado pelas duas vinícolas em Serras diferentes. A Boscato em Nova Pádua, Serra Gaúcha e a Lidio Carraro, distante de sua sede no Vale dos Vinhedos, em Encruzilhada do Sul, na Serra do Sudeste onde começou a produzir comercialmente em 2004. Dois vinhos premium com a intenção igualitária de esmero e convicção em cada etapa da fabricação. O Anima Vitis já foi o vinho mais caro do Brasil em pesquisa realizada entre 2010 e 2011. Chegou a custar quase R$300 no varejo, e olha que foram produzidas 10.000 garrafas, não chega a ser um item de raridade. O Grande Vindima Merlot destacou-se pelos elogios recebidos em uma safra boa mas que nem perto pode ser comparada a safra antecessora, a 2005, tida como vintage no RS. A safra 2006 foi menos glamourosa, quem acertou a mão chamou a atenção.

duetto1

a) BOSCATO ANIMA VITIS 2005. Garrafa Borgonha. Nova Pádua/RS situada a 70km de distância do Vale dos Vinhedos. Projeto ícone da vinícola iniciada em 1983 e que perdura até hoje sem similares dentro do portfólio. Anima Vitis significa do latim a Alma da Vinha. Corte propositalmente impreciso de Cabernet Sauvignon, Merlot, Ancellotta, Refosco Del Pedúnculo Rosso e Alicante Bouschet, vinificadas separadamente. Com esta escalação espera-se chumbo grosso! O vinhedo que dá origem a este vinho é uma mescla de vinhas de 9, 5 e 4 anos em um terreno com excepcional drenagem na encosta superior e platô do Vale do Rio das Antas. Estagia por 13 meses em barrica francesa de tosta média e depois repousa mais 2 anos nas caves para acalmar a fera. O vinho foi oxigenado por uma hora. Na taça apresenta vermelho retinto, coagulado, quase negro, luz impenetrável, observe a diferença de tonalidade da extremidade das rolhas na foto. A aderência ao cristal não é tão radical quanto imagina-se, boa viscosidade mas não untuoso. Apesar de 10 anos o álcool de 13° ainda está aparente no nariz. O olfato é fechado, sério, predominantemente mineral (carvão) e tostado. No palato é quente, enche a boca, mistura de notas terrosas, especiarias doces e um toque balsâmico de média acidez. Estruturado, viés potente com gostoso mentolado que oportuniza boa persistência. Lembra o estilo gustativo do Alma Negra de Ernesto Catena. Suporta com tranquilidade mais 5 anos pela frente em plena forma. O vinho tem um perfil estruturado pouco comum ao estilo da Serra Gaúcha, o que é interessante, mas o conjunto deixa pontas abertas. Falta uma finalização harmoniosa, termina majoritariamente seco e esfumaçado. Foi harmonizado com Grana Padano onde 2+2=3, sobrepujou a textura. Quando o produto é posicionado como ícone prepara-se para rigor compatível do consumidor. O Anima Vitis não traciona corretamente na pista dupla bem pavimentada na safra vintage e manufatura fina na cantina, faltou um grand finale na bandeira quadriculada. O preço acima de R$200 deixa o motor com o consumo alto!


AVALIAÇÃO:

2 saca rolha

PREMISSAS:

P3|R4|E2


b) LIDIO CARRARO GRANDE VINDIMA MERLOT 2006. Garrafa Bordeaux. Vinhedo de 35hectares em Encruzilhada do Sul, aposta premium da vinícola nesta região. A Lidio não utiliza carvalho em seus vinhos, um dos pilares do conceito purista. Além da ideologia, bom lembrar, que na cadeia de custos é uma linha pesada a menos, a barrica custa muito caro – oportunidade (também) para competir com preços atraentes?! O consumidor agradece. Pioneira em inovação técnica e comercial desde a década de 80, a vinícola conseguiu posicionamento incomum no meio de produção. Não é vista como tradicional, nem moderninha, nem pequena , nem grande – é uma marca distinta. O slogan vinhos de boutique passa certo esnobismo, entretanto seu publico alvo “valoriza” minimamente esta “diferenciação” queira ou não. Repare os eventos e empresas parceiras em que a vinícola é atuante – nicho bem definido, principalmente nos grandes centros de consumo premium. Interessante ao consumidor standart é o fato da Lidio proporcionar um portfólio equilibradíssimo, as categorias Agnus e Dádivas oportunizam belos achados para apreciadores de nível intermediário e avançado que queiram preços atrativos. O Elos é o típico segredinho de negócio, quando está em bom preço é imperdível. Já o Faces está virando Coke® diante tamanha produção, exposição de mídia, marketing e parcerias globais. Vamos ao Grande Vindima, quase 10 anos de vida, foi decantado por uma hora. Produzidos 6.960 vasilhames. Na taça apresenta cor vermelho rubi intenso, translúcidos nas bordas. Textura limpa, certa fluidez, lágrimas de média intensidade. Aromas se desprendem com facilidade, especiarias doces, toque de lavanda que me agradou muito. Macio no paladar, mostrou-se menos doce e mais herbáceo, um pouquinho quente no final de boca com o álcool de 13,6º mostrando ainda certo vigor, mas sem atrapalhar. Acidez de mediana para menos. Com o decorrer do tempo em taça apresentou uma textura caramelizada típico da baunilha oriundo do carvalho, que não existe na prática, impreciso definí-lo. Final que privilegia a elegância, conjunto de médio corpo sem arestas, tecnicamente alinhadíssimo. Foi harmonizado com Grana Padano onde 2+2=3, não fez bom encaixe com o salgado. Vinho da linha premium que custa na faixa de R$125. Um Merlot sem malícia, o que é magnífico!


AVALIAÇÃO:

3 saca rolha

PREMISSAS:

P3|R4|E3

Conheça nosso Sistema de Avaliação .