Berçário do Atelier

Dez/16.

Existiria o Atelier Tormentas de um jeito ou de outro, registra-se que seu nascedouro prático foi trilhado com a ajuda da Vinha Solo, instalada no distrito de Fazenda Souza no norte de Caxias do Sul, a 880 metros de altitude. Pode-se creditar, o berçário do Atelier. Um dos primeiros vinhos vanguardistas de Marco Danielle surgiu em parceria com a vinícola do arquiteto Milton Scola e do empresário Raimundo Demore, o Prelúdio 2007 – 70% Merlot, 20% Cabernet Sauvignon e 10% Cabernet Franc, que acredite, um dia já foi comercializado abaixo de R$50. A Vinha Solo tem ligações ideológicas com o Atelier, vinhos naturais com a mínima intervenção, dose minúscula de dióxido de enxofre (SO2), cultuando a tradição secular do vinho francês de autor em contraponto a vinhos com apelo restritamente comercial e homogêneo (importante, não julgo o valor de um ou de outro, melhor ou pior, apenas cito a evidente oposição de ideias, há espaço, consumo e ocasião para ambos). A Vinha Solo anda sozinha, em 2015 estabeleceu uma canal de venda direta por ecommerce. O Prelúdio está lá, comercializado por R$540 a caixa com 6 unidades. São 20 hectares de vinhedos próprios, quase fronteira com Campos de Cima da Serra. (abaixo, foto do vinhedo, retirado do Facebook® do produtor, intitulado: nevasca na Vinha Solo em 27/08/2013). Poético, lindo!

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O solo é de origem vulcânica com predominância basáltica, e estrutura argilo arenosa. Apresenta apenas 2% de matéria orgânica, concentração baixa de fósforo e elevada de potássio.  As mudas foram importadas da conceituada Raucedo, na Itália. A gestão técnica fica a cargo do agrônomo Fernando Andreazza que pratica o raleio das vinhas e erradicação de herbicidas. O Laboratório Randon atua na análise do produto final. A capacidade produtiva pode chegar a 80.000 vasilhames/ano. Conforme reproduz o livro Rogério Dardeau, Vinho Fino Brasileiro, Milton Scola refere-se a não utilização de carvalho nos vinhos da casa desta forma: “Somos partidários do vino senza legno, e de que vinho não deve ter sabor de outras coisas, senão da uva, somente. Nada de madeira nos vinhos da marca… Pura uva e nada mais, a natureza é sábia”. Posição ideológica que difere dos padrão atuais do Atelier Tormentas, que em determinado momento abriu-se a utilização da madeira em alguns de seus vinhos. Os rótulos da Vinha Solo são ornados com desenhos de aves regionais ou com desenhos de fenômenos celestes.

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VINHA SOLO MERLOT 2009. Caxias do Sul/RS. Sem passagem por madeira. Rótulo com o Quero-Quero que são personagens reais dos vinhedos da propriedade, sabiamente flerta a taça que apresenta cor vermelho rubi com reflexos granada. Centro e bordas de média transparência. Textura moderadamente fluída que adere sutilmente ao cristal com pernas longas. Olfato tímido, introspectivo no início… após 15 minutos foi ganhando fragrância, nota-se majoritariamente ameixa roxa, uva passas e framboesas silvestres. Os 13º de álcool, fruto de alto grau glucométrico do mosto obtido com menos de 2kg de uvas, aparece um pouco acima do adequado, logo no servir, mas com a oxigenação “some”, abrindo espaço para um gole suave e assim se mantém doravante. No palato a demonstração de sua faceta mais atraente, é macio e firme, elegante e rústico, uma dicotomia que o mundo do vinho natural permite com galhardia. Confirma a fruta roxa primária, sutil herbáceo e tempero em casca, de dulçor natural que lembra o morder um fruto in natura, o que gera certo distanciamento do mundo urbano e industrial, demora-se a equalizar o sensorial brevemente desnorteado pela falta de intensidade artificial (aromatizado artificialmente idêntico a fruta original). Precisa o apreciador “equalizar” o sensorial que por ventura começa distraído ou pré condicionado, interessante, um Merlot no caminho do conceito purista, de tipicidade inquietante, quase atrevido. Tem um final de boca amigável, gastronômico, acidez equilibrada, taninos bem domados, de médio corpo, sem nenhum sinal de resquício “verde”. Está acessível agora e mais 2 ou 3 anos com boa capacidade de aportar virtudes terciárias. Não espere obviedade, improvável esperar o Merlot de cartilha regional e de drinkability propositivo, vai lhe render certo esforço. Da mesma forma que ler o livro para entender o viés original do filme, ou da série consagrada, assim sugiro apropriar-se da Vinha Solo, excelente oportunidade de investigar o conceito que foi embrionário para o Atelier Tormentas, se descobre segredos não revelados. Fascinante para enófilos e curiosos. Este Merlot custa na faixa limítrofe de R$50. Obrigatório ao conhecimento.

(ERRATA, 01/05/2017) Marco Danielle, gentilmente via Instagram® pontua legítima correção no texto que publiquei, peço desculpas e reproduzo a correção: “Caríssimo @tcherroir, primeiramente quero agradecer a gentileza das palavras e o interesse que tens demonstrado pelo meu trabalho! Mas preciso fazer uma correção sobre a informação do presente post: a Vinha Solo não foi o berçário do Atelier Tormentas, e sim o contrário. O Atelier teve sua primeira safra em 2002 e em 2007, quando conheci a Vinha Solo, o Atelier já gozava repercussão nacional. A Vinha Solo ainda não havia lançado nenhum vinho em 2007, e terceirizava a sua produção junto à Vinícola Fabian. Foi quando os auxiliei no projeto da planta de vinificação e expliquei o processo, ajudando-os a independentizar-se na produção de vinhos próprios. Lançamos juntos, em 2008, o Preludio 2007, que fez um enorme sucesso, mas a sociedade planejada não teve continuidade, pois 90 mil garrafas ano seria para mim um desafio imenso e uma responsabilidade difícil de assumir. O Atelier estava em plena ascensão e eu precisava manter o foco no meu negócio. Entrar em sociedade com eles significaria abortar o Atelier Tormentas, o que não faria sentido. Nossa relação profissional resumiu-se ao Preludio 2007. Considero o Milton Scola, um dos sócios, um grande amigo, e o vinhedo deles é sensacional. É isso!

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