Duelo Fumé

Fev/16.

Certamente um dos quesitos mais utilizados em testes de proficiência para profissionais do vinho é a diferenciação do estilo dos vinhos Fumé e os Fuissé. Grafia e pronuncia parecidos confundem de experientes e amadores. Pouilly-Fumé é um dos principais vinhos do Loire produzidos exclusivamente com a casta Sauvignon Blanc. Pouilly-Fuissé é produzido na Borgonha a partir de uvas Chardonnay. A palavra Fumé decorre da característica física da casca da uva que é coberto por uma cor esfumaçada e acinzentada – não necessariamente tem gosto defumado. Didier Dagueneau, falecido em 2008 foi e é o maior expoente deste estilo, atualmente aos cuidados do seu filho, Benjamin. Estilo que fora da França tem nos Estados Unidos a melhor aproximação, entenda-se “homenagem”. Lá, o precursor foi Robert Mondavi um dos mais notáveis personagens do vinho americano falecido em 2008. Na década de 60 introduziu a Sauvignon Blanc na Califórnia adotando uma vinificação de menor ênfase no frescor e maior complexidade decorrente do carvalho – denominado Fumé-Blanc. Apesar de longo, 30 minutos, este vídeo de Jancis Robinson é cuidadoso na abordagem da Sauvignon Blanc e suas variações vela a pena assisti-lo https://www.youtube.com/watch?v=BtfntN8nSzw. Em 11’15” Jancis contracena com Didier – belo momento. Pois bem, muito próximo de nós brasileiros, dois exemplares disponíveis no mercado: um da Serra Gaúcha e outro de Canelones no Uruguai, homenagem ao estilo Fumé. duelo1

 Um duelo de Fumé Blanc! Brasil x Uruguai. 2014 x 2010. Dall’Agnol x Deicas. Amarelo Pálido x Dourado.

a) DALL’AGNOL FUMÉ BLANC 2014. Edição especial e inaugural de um Sauvignon Blanc 100% de vinhedos localizados em Nova Prata/RS. Projeto da vinícola Estrelas do Brasil de Faria Lemos. Estagiou por seis meses em barricas de carvalho americano de segundo e terceiro usos, engarrafado em Agosto/14.  Que eu saiba produção inédita no Brasil, apenas 2.000 garrafas. Surpresa o vinho ser vedado com a rolha da X Decima – vinícola de Caxias do Sul, sinal de parceria. Apresenta cor amarelo pálido com reflexo citrino, perceptível leve turvamento – opaco. Aromas de um bom vinagre de maça (não é defeito) e bala Azedinha®. Álcool de 13º adequadamente integrado. Na boca é salgado, lembra muito Torta Fria de Frango (a mistura de maionese, legumes, pão, acidez, leve untuosidade) – muito típico e interessante esta similaridade com a culinária fria. A Sauvignon Blanc está preservada em mais de 60% com suas características naturais  “limpa”, o restante é a “alquimia” do Fumé, mas afirmo que se o rótulo não o descreve-se assim as cegas não diria que o propósito seria um Fumé Blanc. É um vinho inusitado, tem acidez gostosa, é oleoso no estilo azeite de oliva – que agrada. Não é um vinho tão óbvio para harmonizar com pescados. Destaque para o preço na faixa de R$35 muito oportuno para um projeto experimental. Comprei duas garrafas, a segunda aguardarei mais dois anos para acompanhar a maturidade. Tem traços mas não é 100% fiel ao estilo, necessário aguardar nova safra. Aprovado pela coragem em fugir da obviedade e assumir riscos.


AVALIAÇÃO:

3 saca rolha

PREMISSAS:

P1|R5|E5

VALORIZAÇÃO:

2

b) DON PASCUAL FUMÉ BLANC 2010. Linha de entrada para consumo imediato da Família Deicas em Juanico no Uruguai. Encontrei este vinho no FreeShop e comprei exatamente para contrapor o Fumé de Nova Prata. Corte de Sauvignon Blanc com pequena parcela de Sauvignon Gris, que matura por 3 meses em carvalho francês de primeiro e segundo usos. Não localizei especificamente este rótulo uruguaio comercializado no Brasil mas o preço de  um S.Blanc simples desta vinícola fica em torno de R$60 praticamente o dobro do Dall’Agnol. Impressionante a diferença de cor amarelo dourado bem carregado e límpido, decorrente de 5 anos de vida entretanto no contra rotulo o produtor cita que o vinho tem cor âmbar, ou seja, a frequente battonage extraiu maior coloração logo na saída. Álcool de 12,5º suave e integrado. Aromas que sugerem flor de lírios, chocolate branco com especiarias – bastante complexo para um vinho de entrada. Na boca açúcar queimado, bolo de laranja, oleoso no estilo carne de salmão. É denso, gordo, retrogosto audacioso. Da mesma forma que o vinho gaúcho não é tão óbvio para harmonizar com pescados. Acompanha muitíssimo bem castanhas, avelã, macadâmia… Tem traços mais característicos ao estilo, apesar da aparência “envelhecida”. Preço concorre na faixa que oportuniza outros vinhos mais prazerosos e garantidos – estivesse no posicionamento do Dall’Agnol subiria um degrau ao consumidor.


AVALIAÇÃO:

2 saca rolha

PREMISSAS:

P2|R5|E5

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