Espaço Tibet

Abril/17.

Expectativa versus realidade. Fomos conhecer o primeiro restaurante tibetano do Brasil situado em Três Coroas, na Serra Gaúcha. Lotado para estacionar, lista de espera por uma mesa em hora e meia que passa rápido devido ao exótico ambiente do lado externo da casa. O dia de Sol ampliou a curtição do local, realça as cores, a arquitetura, os detalhes, a rusticidade aconchegante e aprazível aos olhos. A cultura tibetana sugere a harmonia com a natureza e as energias em torno da vida. As pessoas falam mais baixo devido a música relaxante que se propaga na área externa através de uma caixa de som em volume corretíssimo que não impede a conversa e vai introduzindo a sensação de paz; inclusive as crianças ficam zen e não se observa aquela correria habitual.

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O Espaço Tibet contempla o restaurante, a área externa temática e uma lojinha típica. Tashi Ling é uma expressão em tibetano que significa um Lugar Puro e de Boa Sorte, nome do restaurante comandado pelo chef tibetano Ogen Shak, que junto a sua esposa, são proprietários do local. O chef também é talentoso com a pintura da arte sacra, convidado a pintar templos em Três Coroas resolveu ficar, morar e expandir para a culinária.

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A decoração do salão é muito bonita: paredes, teto, cadeiras, mesas, louças e vestimentas refletem a cultura tibetana. Dispensáveis as duas televisões que passam  imagens do Tibet em looping e desviam a atenção. Ficamos em uma mesa com vista para a piscina ao lado do biombo de serviço da cozinha. De péssima ideal a campainha que sinaliza o prato a disposição dos garçons, impossível não se incomodar com a intermitência do barulho. A velocidade do serviço é slow food zen ultra power, necessário a paciência tibetana (não sei se é o forte deles, mas deve ser). Todas as mesas ao redor reclamaram do espaçamento de tempo entre os pratos. O grande compensador é o entretenimento estético por todos os cantos e que ajuda a distrair-se. O garçom nos sugeriu entrada, salada e prato principal. A entrada foi o ponto alto, trouxinhas tibetanas cozidas no vapor: Sha (carne), Alu (batata) e Nhotsé (legumes), chamado de Momo – uma bolsinha roliça, muito suave e macia. O significado do nome é “o que carrega o carinho da mãe”. A salada é dispensável, são opções “comuns” no cardápio, optamos por rúcula, tomates secos e queijo de búfala, inevitável  o desconectar sensorial com os Momos, do estilo saí do Tibet e cheguei na cantina colonial. Beleza, aprendizado. O prato principal precedeu aquela sensação de o Tibet é logo ali. Que nada! Pedimos o Shatok Niandu Nhotses. Desculpe a sinceridade, Yakissoba sem macarrão. Picadinho de filé mignon grelhado com molho de soja e legumes (pimentão verde, cenoura, couve flor, brócolis), é gostoso, mas não agrega um novo sensorial. Decepção. Inicialmente queríamos o Racha, feito com Pernil de cordeiro com molho de cravo, arroz branco flambado na manteiga, mas havia acabado. Adoramos o Ti Momo, um pão tibetano em formato de caracol temperado com erva doce e açafrão, bonito de se ver e bem diferentão. Nosso Piá escolheu o brownie de sobremesa, o ideal era termos experimentado o Shintok Tse,  purê de banana com frutas secas e calda de caramelo com sorvete. Os pratos servem duas pessoas adequadamente, aproximadamente R$160 com sobremesa, taxa de serviço, e água, preço justo por toda o capricho que encontramos. Valeu conhecer, parabéns pelo propósito inovador, mas inevitável o descolamento da nossa expectativa versus realidade no que tange “banho” sensorial da culinária tibetana, espera bem mais. Enquanto aguardávamos “matamos” o Pizzato Concentus que havíamos aberto na noite anterior. Ah… injusto seria, esquecer o drink de rosas com espumante, obrigatório, muito bom!

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PIZZATO CONCENTUS 2008. Santa Lúcia, Vale dos Vinhedos/RS. Solo de origem basáltica, franco, com pedregulhos e argiloso Depois de conhecer o pão tibetano nota-se a semelhança com o sugestivo caracol do rótulo. Gran Reserva, corte de impreciso de Merlot, Tannat e Cabernet Sauvignon. Passagem por carvalho novo e usado, americano e francês durante 12 meses. Garrafa de nº 1.581 de 4.000 produzidas. Concentus, do latim, significa harmonia, acordo, consenso. Na linha dos tintos da casa só perde status para o “mítico” DNA99. Surgiu para impressionar como mescla da família. Na taça apresenta tintura escura, cor vermelho retinto. Adere com força ao cristal, bastante gordo nas lágrimas e arcos. No nariz carregado no carvalho, verniz, defumado, orégano. Muito impregnado nos aromas com os 13,5º de álcool ainda perceptível apesar de quase 10 anos de garrafa. No palato é untuoso com a fruta vermelha bem condimentada e caramelizada que lembra um vinho fortificado de entrada, bacon, pequeno final terroso. Acidez amenizada e taninos bem equilibrados. Apresenta um corpo complexo, de peso médio, final bem ajustado e tostado (café expresso) que impede o sensorial avançar em detectar terciários de anos em garrafa. O carvalho protagoniza e emprega força demasiada. Vinho feito para denotar um estilo de concentração e está alinhado ao propósito, com final longo e marcante. A meu ver torna-se excessivamente impenetrável limitando identificar sua real personalidade e o prazer do apreciador. Está no apogeu, com mais 3 a 5 anos pela frente. Custa na faixa limítrofe de R$100.


AVALIAÇÃO:

2 saca rolha

PREMISSAS:

P2|R4|E2

VALORIZAÇÃO:

VASILHAME3

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