ERS-030 ou Freeway?

Abril/17.

Confrontar caminhos. Há quem defenda a ERS-030 que já foi a única alternativa viária que ligava a região metropolitana de Porto Alegre ao Litoral Norte até a construção da “modernosa” Freeway. Entusiastas das curvas sinuosas, acostamentos em fiapos (quando tem), mão dupla, descampados ao longe, vilarejos ao perto, alguns solavancos na suspensão, a sensação de que se viaja mais conectado ao carro, assim defendem os amantes da “Estrada Velha”. A  Freeway, prodigiosa no ranking Quatro Rodas®, pedagiada, segura, larga, equipada, conectada, o cimento Portland massageando o pneu de seu carro. A sensação de que se viaja mais conectado aos passageiros, assim defendem os amantes das quatro pistas. Eu gosto da Freeway, era um crítico do câmbio automático mas hoje prefiro a comodidade, o piloto automático flerta com a Freeway e eu confesso, cedi. Ir para o litoral norte partindo da capital gaúcha é uma forma de confrontar caminhos de um mesmo destino, vai muito do estado de espírito. A Marselan da Serra Gaúcha da safra 2012, confrontei caminhos. Dois vinhos desafiadores de tiragem minúscula, “sur mesure” por LH.Zanini+Escher+Hermeto no Era dos Ventos e Sandro Valduga na Terragnolo. O projeto Era dos Ventos acesse este post e relembre. A vinícola Terragnolo tem sua origem na família Luigi Valduga imigrantes vindos de Terragnolo, província de Trento, norte italiano. Atualmente, Sandro Valduga (bisneto) da 4ª geração é o responsável pelo “encaixar dos trilhos” desta pequena vinícola de produção aproximada de 10 a 12mil garrafas/ano. Atende as exigências da  modernidade e emprega no negócio a visão de nichos de mercado com experimentação e preservação das origens. Uma “dobradinha” que já provou dar muito certo no Vale dos Vinhedos, reduto (ainda) de resistentes a “invenções de moda” descompassadas da garantia de retorno financeiro imediato. O casal Sandro e Shana Larentis Valduga empreendem também em uma pousada para os turistas, anexada ao vinhedo.
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a) ERA DOS VENTOS MARSELAN 2012. LHZ, assina o contra rotulo: “Vinho o sumo celestial, A seiva telúrica que transcende a razão, O elixir que corrompe a ampulheta histérica da vida, Em sua magnífica e perturbadora dualidade: é sacro e herético, sereno e devastador, sangue e alimento, letárgico e dançante, Fermentado do Sol, bebida da luz”. Caminhos de Pedra/Bento Gonçalves/RS. Na taça apresenta cor escura de água de cozimento do pinhão, muito característico, acastanhado e avermelhado. Textura lisa, fluída, sutil em lágrimas espaçadas, singela apresentação visual. No olfato o álcool (12,5º) desprende, lembra descongestionante nasal infantil, não agradou. Alguns bons minutos até surgir vegetação rasteira, húmus. Na boca apresenta uma fruta roxa sem adornos, sinuosa, com final seco (demasiado), farofa de cacau (tanino atuante), pimenta do reino. Gera evidente desconforto sensorial ao palato desavisado ou curioso, sensação de perda de sinal buscando pontos cardeais, estilo de vinho comportamental. Up and down em limítrofe, majoritariamente de estilo rústico. Acidez que pede harmonização. Cresceu muito com arroz 5 grãos biodinâmico com neck de cordeiro e queijo colonial, onde 2 + 2 = 4.  Custa na faixa de R$160, produção limitada a 600 garrafas estilo Bordeaux. Está pronto para o consumo com mais 2 ou 3 anos.


AVALIAÇÃO:

2 saca rolha

PREMISSAS:

P3|R4|E2

VALORIZAÇÃO:

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b) TERRAGNOLO BOULDER MARSELAN 2012. Vale dos Vinhedos/Bento Gonçalves/RS. Amadurecimento de 36  meses em apenas 5 barricas de carvalho francês de 225 litros, aproximadamente 1.500 vasilhames de estilo Borgonha. Boulder, refere-se a tipicidade de fragmentação do solo rochoso. Na taça apresenta cor vermelho escuro retinto, quase negro. Textura de estilo licoroso, concentrado, com lágrimas pequenas e aderentes, formando três sessões continuadas de pernas. Os 14º de álcool inundam o olfato de ameixa e cassis, denota dulçor, sem repelir. Personalidade forte. Na boca é direto, pegada novo mundo, o carvalho moldando a fruta madura em explosão de figos, mirtilo e leve alcaçuz. Final de cookies com passas ao rum. Acidez mediana, taninos domados por longos 3 anos estão comportados. Retrogosto longo, em simetria. A Marselan com adornos, pouco ou nada crua, cede espaço a madeira para somar e diga-se, atinge o propósito. Diferentemente do Era dos Ventos aprecia-se sozinho sem necessidade de comida, prazeroso ao pós refeição nutrindo a meditação. Longa vida pela frente, certamente desfrutando do apogeu com mais 4 a 5 anos. Custa na faixa de R$140. Haverá a dúvida da maquiagem do severamente carregado em barrica, sim a ressalva é justa. Vai do gosto e do estado de espírito, principalmente quando se propõe confrontar caminhos visionários.


 AVALIAÇÃO:

5 saca rolha

PREMISSAS:

P3|R5|E5

VALORIZAÇÃO:

vasilhames2

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