Aprazível começo!

Abril\2014

Meu interesse pelo restaurante Aprazível não foi à excelente comida ou ainda seu exótico conceito de acolher o turista, ambos comprovados. Encravado no pico do bairro Santa Teresa no Rio de Janeiro, descortina-se a Marques de Sapucaí, o centro, a Baía de Guanabara, bem lá embaixo, ao longe. Um lugar que meu sobrinho Pedro definiu como “Rio, o filme”. Animação que cria um Rio de Janeiro tropicalmente despojado.

Tudo começou quando li uma crítica muito favorável aos vinhos da Era dos Ventos, formado pelo tripé: LH Zanini, Alvaro Escher e Pedro Hermeto. Este último, o condutor proprietário do restaurante Aprazível. Logo me interessei pelo projeto.

Procurando matérias, descobri um vídeo no YouTube onde Hermeto e Zanini apresentam a convidados o projeto Era dos Ventos. Acessei www.aprazivel.com.br, fiquei surpreendido com a carta de vinhos genuinamente made in Brazil. Produtores artesanais e de pequeno/médio porte. Muitos desconhecidos até mesmo de apreciadores. Uma coragem e tanto sapatear no complexo de vira latas e apresentar ao mundo, sim, é um restaurante com massiva presença de turismo internacional, vinhos do nosso terroir. O precursor deste portfólio foi Jonathan Nossiter. Sou admirador do seu documentário Mondovino e extinta coluna no jornal O Globo. Decidi naquele momento que na melhor oportunidade conheceria de perto esta carta de vinhos e por consequência o Aprazível.

O taxi serpenteava as ruas apertadas em direção ao sopé do bairro Santa Tereza. Não é um lugar fácil de encontrar, nada que um bom GPS resolva. Deixo a certeza de que é um local para se voltar, mas obrigatoriamente, conhecer. Ajoelhei, soltando tiras de alegria: o Delicioso Cabrito. Assado lentamente no vinho tinto, um protagonista, escoltado por cebola caramelizada, cogumelo Paris e purê de inhame em total harmonia. Que noite! Que companhia! Que lembrança eternizada! Dou fé, o melhor investimento sensorial na altitude do Cristo Redentor.

aprazivel1Os vinhos.

Uma carta bem servida de rótulos nacionais artesanais, pequenos produtores, muita autenticidade, espumantes de prestígio para contrapor a sensação térmica carioca, difícil decidir. Cada rótulo vem acompanhado de uma descrição bem acessível com a proposta do produtor e característica do vinho, isso ajuda muito ao consumidor.

Os preços vão de R$ 50, para um Moscatel, até R$ 200, o ícone da Era os Ventos. Considerando a proposta do restaurante de apresentar produto nacional ao turismo, achei os preços honestos e cabem em qualquer tipo de bolso e emoção.

A excitação do momento oportuniza certo exibicionismo. Assim me senti neste dia. Exibido de felicidade, de confiança, de agradecimento. Estes momentos me impulsionam a ousar. Fiquei uns bons minutos flertando com a carta. Porto Alegre fica aproximadamente a 1.200km de avião do Rio, e 120 km de carro de Bento Gonçalves/RS. Percorri 10 vezes mais distancia para brindar o meu 1º Bettú!

Imaginei a harmonia do exibicionismo. Local, prato, momento, vinho. Não há exibicionismo maior do físico e artesão Vilmar Bettú que seu Exacorte de 1.600 garrafas, produzido no canteiro de casa com diversas “sobras” de seus inventos. Um exibicionismo e tanto! A garrafa 826 escoltou em aço blindado o Delicioso Cabrito.

Encerrada a refeição de chefe de Estado, embriagado de felicidade, não hesitei em convidar meu amigo Gerard para o aprazivel2Grand Finale. O golpe na hesitação de viver o melhor. Estávamos no quartel comercial da Era dos Ventos, dever, saudar o Marechal Peverella.  Solicitamos o cultuado e minimalista projeto Era dos Ventos Peverella 2010 de raros 800 vasilhames de suposto ouro genuinamente gaúcho.

Certamente, o mais polêmico vinho branco brasileiro. Depois de conhecê-lo, a polêmica é mais que justificada. Digo mais, é necessária para a evolução e ponderação da cadeia produtora e consumidora de vinhos.

Concluímos a noite no Casterly Rock de Santa Teresa, honrando o brasão e o lema da Casa Lannisters.

Day After. Há momentos em que a emoção não oportuniza a razão, é tirana, foi assim o jantar. Este site tem uma filosofia bem definida: consumidor de vinhos. Um dos pré-requisitos que sustentam a avaliação estava prejudicado, portanto o dia seguinte serviu para por a “bola no chão”


a) VILMAR BETTÚ, EXACORTE, união de safras de 2001 a 2004, engarrafado em 2008, 1.600 vasilhames. Quinze variedades de uvas, tanto quanto um Chateauneuf du Pape. R$ 150,00 no Aprazível. Não foi decantado.

É um vinho de circunstância. Teria muita desconfiança de seu custo benefício se não tivesse a maturidade de aguardar o momento semelhante a sua criação: fartura! Um vinho feito do que sobrou, é farto. Farto foi o jantar no Aprazível.

Custando R$ 150,00 entendo ser um preço na faixa de vinhos de difícil persuasão, portanto a responsabilidade é grande para um produto nacional.

Na taça.

Cor opaca, brilho desbotando. Corpo de filet mignon. Aromas de terra com animais soltos lembra um vinho de qualidade e rusticidade do Rhone, especiarias desidratadas no saquinho vencido, não tem aquele frescor da erva. Cheiro de armário de cozinha úmida e antiga. Seus quase 14° de álcool não se comprovam, integrado, no caminho para “licorar” dá potencia para pratos de cozimento longo, nada de brasa, churrasco, galeto. É um vinho para culinária francesa tradicional com carne. Sozinho impressiona menos, falta elegância. O grande acerto está na comida adequada que ameniza a rusticidade e aporta complexidade ao conjunto. Em casa decantaria sem hesitar. Não tenho dúvida de que estou diante de um vinho que da sobra de limão surge uma deliciosa limonada suíça, que devido ao preço pode ser mal interpretado. A ousadia desta ideia, reconheço, é sensacional! Não podia ter melhor iniciação nos Bettús do que neste jantar. Parabéns ao físico vinhateiro.

AVALIAÇÃO:

4

PREMISSA:

P3 | R5 | E5

Valorização:

2


b) ERA DOS VENTOS, PEVERELLA, 2010. R$ 190,00 no Aprazível. Produção de 800 garrafas. Foi decantado.

É um vinho polêmico. Lembro de uma conversa com o Eliseu, da Vinhos e Sabores em POA. Sugeriu a compra e eu refutei. Argumentou que é um vinho fora dos padrões, ame ou odeie, valeria a experiência. Me sentia desafiado mas o preço… ops! Bom, és que surgiu o Aprazível.

Na taça.

Não é um vinho branco, nem mesmo um branco envelhecido. É um novo produto. Assemelha-se a cor e textura de um Jerez Amontillado, mas as características param por aí. A cor é linda! Uma loura flertando para o ruivo, exótico, sexy! O decanter resfriado foi acertadíssimo. Os aromas logo vieram. Nunca havia sentido cheiro de gás em uma taça. Sim, gás tipo GLP. É mais do que oxidado. Volta e meia meu aquecedor a gás solta um tipo de combustão que me lembra este vinho, que no dialeto veneto – Pevero, significa picante/apimentado. Olha, se tem uma coisa que não encontrei foi pimenta: nem de moça, nem do reino, nem biquinho.

Os 11,5° de álcool são imperceptíveis. Zero, zero, zero de acidez. Lágrimas ligeiras e acetinadas. Corpo natural. Lembra a Playboy da década de 80.

Tivemos uma sorte danada de beber este Peverella substituindo um Armagnac, finalizando a refeição. Definitivamente é um vinho para harmonizar com absolutamente nada. É um vinho egoísta. Você não pode tirar a atenção dele. Meu cunhado que não é um consumidor cotidiano, o definiu como: “não é para qualquer um e para qualquer fim”. Simplificando, você tem que interpretá-lo. Pelo seu posicionamento de preço há inúmeras opções que proporcionarão mais prazer e confiança.

Humildemente reconheço que diante da obra maior da Era dos Ventos recordo-me da visita ao D’Orsay. Diante renomadas obras me esforcei para compreender sem conhecimento técnico apenas com paixão. Concluí que mesmo com posses jamais pagaria o preço estimado. Fiquei inseguro se eu que sou emocionalmente limitado ou a obra que é valorizada por exatamente confundir a razão.

Precisarei um novo momento com este Peverella. Tenho certeza que virá. É inquestionável que se trata de um vinho intelectual, é arte, transcende, prudente cautela nesta primeira abordagem.

AVALIAÇÃO:

2

PREMISSA:

P3 | R2 | E5

Valorização:

1

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