Inspiracão Rhône

Nov/16.

A transição do clima predominantemente continental do Rhône Norte para o clima majoritariamente mediterrâneo e marítimo do Rhône Sul. Paraíso de cortes de diversas uvas que raramente são vinificadas sozinhas por lá. A natureza imbatível para a Mourvèdre, Grenache, Syrah, Cinsault, Carignan, Grenache Blanc, Viognier, entre outras uvas autóctones menos conhecidas. Diferentemente do que ocorre no Rhône com a utilização do assemblage em seus vinhos, no Novo Mundo estas castas produzem vinhos varietais e as vinícolas se inspiram no imaginário desta tradicional região francesa. Na Austrália, uma das maiores vinícolas do país a D’Arenberg (desde 1912) produz o The TwentyEight Road Mourvèdre (casta conhecida na Austrália por “Mataro”), enquanto no Chile a tradicional De Martino produz o single vineyard El León Carignan. Ambos de climats de vales (McLaren e Maule, respectivamente), regiões ensolaradas, contundente stress hídrico das vinhas, potentes em álcool, feitos para refletir longo estágio em carvalho francês, tingir a taça e dissolver proteínas. Mesmo tempo de cárcere na garrafa, praticamente 10 anos nos dois exemplares.

matidaren2

a) D’ARENBERG THE TWENTYEIGHT ROAD MOURVÈDRE 2007. Vinhedo à oeste da propriedade em McLaren Vale, Sul da Austrália. Vinhedo plantado em 1920 pela família Osborn. O vinho estagia por 12 meses em carvalho novo francês e americano. Rolha em excelente estado. Na taça apresenta cor vermelho acastanhado com bordas em tons de telha, observa-se ligeira transparência no contra luz . Finíssimo depósito suspenso no líquido. Textura fluída de média aderência ao cristal. Lágrimas numerosas e são diversas as pernas que se formam. Olfato especiarias doces, predominante a canela em casca, a madeira do carvalho, o melado. Eu esperava que os 14,5º de álcool apresentassem o cartáo de visitas subindo rapidamente pelas narinas, mas não ocorreu. Bem integrado e comportado. No paladar confirma a predominância das especiarias doces, perfumaria provençal, cerejas em conserva e um toque de licor de cassis com infusão de hortelã. Gostosa persistência, + de 10 segundos em alta performance. Taninos muito bem domados, acidez suficiente para manter o “esqueleto articulado”. Corpo médio para cheio, um vinho quente, ensolarado, perfil novo mundo incontestavelmente. O dulçor vai criando uma camada no palato que torna o vinho, de uma nota só, não permitindo variações sensoriais com a oxigenação e o avanço do tempo. Uma pena pois teria nítida capacidade para se aventurar, uma casta interessante que oportuniza um vinho gostoso para acompanhar cortes suculentos. Vale experimentar com a parceria de um bom braseiro, sozinho fará sucesso finalizando um Papaya com Cassis. Custa na faixa de R$200 para mais. Faixa de preço perigosa devido a forte concorrência de outros rótulos com o conceito “bola de segurança”, precisaria descer um patamar tornando-o mais atrativo a curiosidade.


AVALIAÇÃO:

2 saca rolha

PREMISSAS:

P4|R4|E2


b) DE MARTINO EL LEÓN CARIGNAN 2006. Maule Valley. Marcelo Retamal, winemaker, assina o rótulo. Tradicional casa chilena fundada em 1934. Vinhedo de 1,5 hectares plantado em 1958 de solo granítico localizado em Cauquenes, um “cordão de file mignon” ao sul do Chile plantado em “Pie Franco”. Apensar de expressar unicamente a Carignan no rótulo, EL León conta também com 10% divididos entre Malbec e Carmenére. O vinho estagia por longos 16 meses em carvalho francês. A rolha apresentou logo na introdução do saca rolha sinais de esfarelamento agudo, enorme mão de obra para extraí-la aos pedaços. Superado este ritual delicado e nem sempre exitoso, o Carignan apresenta cor vermelho granada intenso, impenetrável, levemente turvo devido aos depósitos em suspensão. Infelizmente não dispunha de decanter no momento. Textura untuosa, viscoso na taça, concentrado, mas distante de ser enquadrado como um xarope. Aromas evoluídos de decomposição de humus e cânfora são predominantes. Segunda camada mais tênue de cassis sobre-maduras, e algum grafite. Na boca o vinho é vigoroso e quente. Transporta suas papilas para as lembranças de um emplastro medicinal para dores musculares após aquele “tostão” no futebol. Os taninos estão domados, acidez que mantém ainda vivo o vinho, corpo médio para cheio, doce e cozido. A harmonização com o suculento Prime Rib ajudou a levantar o Carignan de 14º de álcool. Sozinho é cansativo e essencialmente torrado. Acredite ou não, com o café expresso o El León parece ter encontrado parceria adequada. Tema de casa: encontrar melhor equilíbrio! Custa na faixa R$180 ou mais. Faixa de preço que torna a missão complicada para o convencimento do consumidor que tem a disposição um vinho que você prova e diz: “Ok. Próximo!”.


AVALIAÇÃO:

2 saca rolha

PREMISSAS:

P3|R4|E2

Conheça nosso Sistema de Avaliação .