Lau Sus Cri

Nov/16.

Salamanda do Jarau é uma lenda gaúcha. Relata a história de uma princesa moura que se transformara em bruxa e que teria vindo em uma urna de Salamanca, na Espanha, e acabou indo morar em uma caverna no Cerro do Jarau, no Rio Grande do Sul. Na Semana Farroupilha, o jornal o Pioneiro publicou uma versão(*) contextualizada do conto, o reproduzo aqui:

Era uma vez um pobre gaúcho chamado Blau, que só tinha um cavalo gordo, um facão afiado e as estradas reais. Enquanto campeava um boi barroso, pensava no atraso em que andavam suas cousas, desde o dia em que encontrara o Caipora… Mas eis que na volta duma reboleira, avistou um vulto branco: era o santão da Salamanca do Cerro.
– Laus’Sus-Cris’!… (corruptela de “Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo”).
– Para sempre, amém! – respondeu o vulto, que passou a lhe contar sua história.
Eu era sacristão e um dia capturei a Teiniaguá dentro de uma guampa. Com isso, me tornei o homem mais rico do mundo. Mas um dia a Teiniaguá tomou forma de mulher e com ela, seduzido, me deitei. Ao ser descoberto pelos padres, fui sentenciado à morte. Salvo por ela, passei o Rio Uruguai e vim parar aqui no Cerro do Jarau, que ficou sendo o paiol das riquezas das Salamancas de outros lugares. Faz 200 anos que aqui estou; mas nunca mais dormi, nem tive fome, sede, dor… Eu olho para tudo e não posso gozar nada. Tu, que foste o único a me saudar como cristão, podes entrar na caverna e ser servido do que quiseres! Então Blau apeou-se e foi andando. Meteu o peito por entre espadas afiadas; enfrentou quatro jaguares famintos; passou por esqueletos; enfrentou línguas de fogo; venceu a boicininga venenosa; resistiu à tentação de uma ronda de moças lindas; passou por uma tropa de anões. Vencidas essas sete provas, Blau topou com uma mulher muito velha, que lhe ofereceu poder e riquezas. Mas o gaúcho, que desejava a Teiniaguá encantada, foi empurrado para fora da furna por força descontrolada. O sacristão deu-lhe uma onça de ouro que se multiplicaria sem fim. No caminho, Blau foi pensando nas coisas de que carecia: armas, roupas, cavalo, campo, gado. Tudo comprou com a moeda que se multiplicava na guaiaca. Começou a correr a fama da sua fortuna e correu de ouvido para ouvido que ele tinha parte com o diabo. Por isso, Blau churrasqueava e mateava solito. Então voltou ao Cerro do Jarau, onde saudou o sacristão, como da outra vez:
– Lau’ Sus-Cris’!…
– Para sempre, amém!
Blau atirou-lhe aos pés a onça de ouro, dizendo:
– Prefiro a pobreza dantes à riqueza desta onça amaldiçoada! Adeus! Fica com Deus!
– Seja Deus louvado! Pela terceira vez falaste no Nome Santo, e com ele quebraste o encantamento! – disse o vulto.
Neste mesmo instante o Cerro do Jarau tremeu. Uma língua de fogo com muita fumaça saiu da terra. Eram os tesouros da salamanca que queimavam Com isso, Blau Nunes voltava a ser pobre como dantes, porém, desfrutaria em paz o seu churrasco, em paz o seu chimarrão, em paz a sua sesta. Em paz a sua vida!…
* Esta é uma adaptação da lenda A Salamanca do Jarau, publicada por Simões Lopes Neto em Lendas do Sul, em 1913 – Pelotas/RS.

A arte do rótulo é uma obra do artista plástico e proprietário do pitoresco restaurante Atelier das Massas em Porto Alegre, Gelson Radaelli. Foram produzidos 4 versões de rótulos diferentes para o mesmo projeto. A vinícola Routhier & Darricarrère é jovem, inaugurada em 2002, seu enólogo é Anthony Darricarrère. De porte pequeno/médio produz aproximadamente 20mil garrafas/ano.

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ROUTHIER & DARRICARRÈRE SALAMANCA DO JARAU 2012. Rosário do Sul, Campanha Gaúcha/RS. Estagio em carvalho francês de terceiro e quarto uso por 12 meses. Foram produzidos apenas 2.000 unidades com 100% Cabernet Sauvignon da excelente a safra 2012 no RS. A fermentação ocorreu espontaneamente com as leveduras da própria uva (indígena). Na taça apresenta cor vermelho rubi escuro, que no contra luz oportuniza uma ligeira transparência. Textura de boa fluidez, adere com delicadeza ao cristal, lágrimas intermitentes, algumas ligeiras outras vagarosas. No olfato o álcool realiza o primeiro ataque, sensação de leve cânfora, em seguida mistura o frescor do morando com notas defumadas do bacon e lavanda. No paladar apresenta um amargor acima do tom que vai acalmando com o passar do tempo. Sabores do figo, do mirtilo, do bacon, da pimenta do reino, do orégano, um toque de couro que perpetua até o próximo gole. Os taninos estão adequados, o torna acessível, de corpo médio para ligeiro, acidez média. Os 12º de álcool que geram certo descolamento no olfato, no palato estão mais discretos. O carvalho está (ainda) demasiadamente presente no conjunto, mas dará estrutura para este Salamanca do Jarau desenvolver melhor seus aromas e sabores com mais 3 a 5 anos em garrafa. É um vinho que crescerá com o tempo.  O melhor trabalho da jovem vinícola até aqui, um vinho com vestígios de um perfil sóbrio – o que é bom para o amadurecimento gradual da R&D. Custa na faixa de R$90,  tiragem limitada e muito capricho no aspecto cultural e estético. Nesta faixa de preço briga com boas e tradicionais opções no mercado nacional. Neste aspecto precisaria ser mais acessível, até pelo fato de estar na curva de aprendizado. Sim, boa opção vale experimentar e monitorar sua evolução e novas safras.

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AVALIAÇÃO:

2 saca rolha

PREMISSAS:

P2|R3|E2

VALORIZAÇÃO:

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