Lili Barrinho

Out/15.

A melhor e original explicação para a Praia do Rosa em Imbituba, litoral sul de Santa Catarina ser relacionada com a produção de vinhos é o ditado dos gringos da colonização italiana: “Tu pode sair da colônia, mas a colônia não sai de ti!”. Lizete Vicari, foi criada no Vale dos Vinhedos/RS, “embaixo do parreiral”, certo momento partiu para o balneário do Rosa onde estabeleceu-se comercialmente com o artesanato – artista ceramista, daí o “barrinho”. Lá, o filho José Augusto cresceu, aos 14 anos resolveu morar com o Pai em Bento Gonçalves/RS, estudar para o vestibular. A ideia era formar-se em administração de empresas e cuidar dos negócios da família, entretanto o viés artístico da Mãe preponderou. O guri voltou para o Rosa com a certeza do não e a dúvida do sim, sonhava em ser músico desaprovado pelo Pai. Mãe dificilmente erra, Lizete plantou a sementinha… “Quem sabe então, estudar enologia?”. Formou-se e longe de ser “vinícola”, ciente de si, criou uma original e bela história de curta-metragem, daquelas em que pessoas do cotidiano urbano sentem-se reflexivas e tocadas pelo exemplo de paixão e auto conhecimento, a menos querer e mais fazer, surge o Domínio Vicari de Mãe e Filho em 2007.VICARIAs uvas são cultivadas organicamente commanejo de calda bordalesa nas terras da família no Vale dos Vinhedos/RS, parreiral muito pequeno e antigo, percorrem pós colheita quase 700km noturnamente até a garagem da casa, no Rosa, onde ocorre imediato processo de vinificação colaborativa com ajuda de fiéis amigos. Uma aventura cuidadosa e ao mesmo tempo arriscada devido a possibilidade de rompimento da casca e a  fermentação precoce durante o longo e intempérie transporte. O conceito aplicado na vinificação é zero em tudo: prensagem, clarificação, sulfitos, conservantes e carvalho. Enorme preocupação com a higienização em um ambiente artesanal, ademais deixa-se o organismo vivo expressar-se naturalmente. Lis Cereja, proprietária ao lado do marido da Enoteca Saint Vin Saint em SP, conhecida também ou até mais pelo fervoroso respeito, apoio e divulgação dos vinhos naturais, sintetiza com propriedade os produtores desde micro segmento: “Ninguém é previsível, fazem umas coisas que desafiam o bom senso e todas as teorias vigentes”. Há quem rotule como movimento hippie da vinicultura ancestral, majoritariamente válido pelo resgate cultural do que a qualidade propriamente dita. Entendo que polarizar a qualidade e conceito da indústria de um lado e os “naturebas” de outro, ocasiona um precipício de ignorância onde o consumidor diante tamanha insegurança opta nem por uma lado nem pelo outro, prefere seguir o rio e encontrar um local menos vertiginoso, exemplo do que tem ocorrido harmoniosamente nas cervejas industriais x artesanais. Uma complementa a outra, não são excludentes. No vinho a pecha é filosófica e comercial, como se não bastasse a tirania dos impostos governamentais. Notável acidez nas palavras subliminares de um lado e de outro. Experimentei o meu primeiro Vicari ao lado da família no restaurante Aprazível® no Rio.

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DOMÍNIO VICARI SANGIOVESE 2014. As uvas advém de Urubicí, na serra do Panelão/SC. Este vinho obteve grande repercussão no Primeiro Encontro Franco-Brasileiro de Vinhos Naturais. Ao vê-lo na carta de vinhos o propicio momento estava a meu alcance. Todos os vinhos do Domínio são vedados com cera de abelha. O rótulo é trabalho do pintor gaúcho Fabiano Tavares, morador do Rosa. O contra-rótulo traz um poema, Soneto do Vinho de Jorge Luiz Borba, ao estilo cultural dos rótulos do LH Zanini, bacana! Na taça apresenta um vermelho rubi bem clarinho e acastanhado que lembra casca de pinhão. As lágrimas parecem vestir chinelos sobre pedras com limo, escorregam velozmente. Aromas sutis de refresco de groselha com cravo com leve azedinho. Na boca a textura é magra, silhueta anos 70, uma fruta bem limpa sem nenhum adocicado, confundi um pouco em relação a tipicidade. Lembra smoothie de beterraba, laranja, cenoura e gengibre. Persistência ligeira. Os 11,5º de álcool são discretíssimos, acidez na medida com vocação para pratos delicados. A discrição do fermentado é uma virtude coerente ao que se propõe, entregar a simplicidade da vinificação em harmonia com a natureza que deu origem aos frutos. Vinho de chinelos, vale experimentar. Custou no Aprazível R$124,00, bem salgado para o bolso nacional que responde por apenas 40% do movimento do local o que explica o preço. A compra direta com o produtor ameniza, fica na faixa de R$75. O mercado do Domínio é majoritariamente São Paulo onde o poder aquisitivo é maior. A produção é minúscula não chega a 1.000 vasilhames por rótulo. O carro chefe da casa é o Merlot, o exótico é o Riesling Itálico ao estilo Orange wine. apra1apra2Apesar de tê-lo harmonizado com Pernil das Gerais: pernil confitado de porco caipira do cerrado Mineiro regado com especial molho da casca de laranja da terra. Acompanham arroz branco, farofa de cenoura e passas e abacaxi caramelado com hortelã onde 2+2=4, o Sangiovese surpreendeu com a sobremesa. Goiaba do Paraíso: cozida em calda de maracujá e especiarias, com sorvete de goiabada, regada com calda de goiaba e raspa de limão, onde 2 + 2 = 5. A vocação da  Praia do Rosa manifestada jocosamente pequeno Gafanhoto!

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Aproveitei a euforia e adquiri o Era dos Ventos Ícone Teroldego 2007. Dizem, Cosa Nostra! Aguardarei 10 anos.


AVALIAÇÃO:

3 saca rolha

PREMISSAS:

P2|R3|E5

VALORIZAÇÃO:

1

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