Maria, Poda Invertida

Jul/17.

O relato é de que Milton Nascimento ao passar por parreiras em fase de implantação na Fazenda Capetinga, em Três Pontas, no sul de Minas Gerais, indagou o amigo Eduardo Junqueira Nogueira Junior, quinta geração de uma tradicional família de cafeicultores: “Plantar uvas no Sul de Minas?” com ênfase de perplexidade. Surgiu ali o nome da vinícola, Maria Maria em referencia a música do artista, no álbum duplo Clube da Esquina 2 de 1978. O refrão… “Mas é preciso ter força, É preciso ter raça. É preciso ter gana sempre” é inspiração para os idealizadores em colocar Minas Gerais como novo terroir vitivinícola do Brasil. Em 2009 foram plantados 5,2 hectares com as variedades Syrah, Cabernet Sauvignon e Sauvignon Blanc, com assessoria técnica de Murillo Albuquerque Regina, o grande pioneiro e desenvolvedor da atividade na região, através da experimentação da dupla poda ou poda invertida, a inversão de ciclo da videira, descrita no post anterior. Atualmente o parreiral é composto de 12 hectares, sendo: 6 hectares de Syrah, 2,5 hectares de Sauvignon Blanc, 2,5 hectares de Chardonnay (para a produção de espumante) e 1 hectare de Cabernet Sauvignon. Particularidade onde cada vinho recebe o nome de uma mulher da família: na primeira safra 2013 os vinhos se chamaram Agda bisavó de Eduardo; Ada tia avó de Eduardo, Anne sua cunhada. Na safra 2015 , Bel (Sauvignon Blanc) e Bia (Syrah).

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MARIA MARIA BIA SYRAH 2015. Três Pontas/MG. Predomínio de solo argiloso. Breve passagem por carvalho não informado no site do produtor. Na taça apresenta vermelho rubi violáceo jovem, grande pigmentação, escuro, tinge a taça – lembra muito a matiz do suco de uva integral. Textura de média fluidez, com notável densidade, lágrimas intermitentes com alguma ou pouca aderência. No nariz é instigante, mistura defumado suíno, com floral, especiarias e frutado doce. No paladar o primeiro ataque é de groselha negra e amargor suave do café, reforçando o defumado porém menos animal e mais vegetal que lembra figos maduros levemente caramelizados no fogo. Não espere um vinho leve, fácil, de estilo mais do mesmo, apesar do corpo médio, o centro de gravidade é firme, quase duro, sem conotação de defeito e sim personalidade (ou busca de…). Claramente um Syrah livre, local, não veio ao mundo para ser copia barata. Diante isto já merece os parabéns! Os 14º de álcool causou um certo desconforto na harmonização com Quiche Lorraine, é um ponto de atenção. A opinião ficou dividida em relação ao herbáceo, para uns o toque “verde” no final de boca atrapalha, para outros, taninos precisando evoluir mas sem aportar “prejuízo”. Sou da opinião que o “verde” atrapalha a transição entre um gole e outro, e principalmente a quebra entre o olfato e o paladar, um ponto acima e outro abaixo. Projeto jovem, desafiador, mas com certeza em um microclima que vai dar resultado e principalmente refletir a cultura e a geografia local, o que é espetacular para o vinho nacional. Pena o preço, no limítrofe de R$100.


AVALIAÇÃO:

2 saca rolha

PREMISSAS:

P2|R5|E2

VALORIZAÇÃO:

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