Não use papel toalha

Jun/17.

Alguém que diverge das opiniões de outrem ou da opinião geral, ou se separa de uma corporação por essa divergência. Ato de discordar de uma política oficial, de um poder instituído (ou constituído) ou de uma decisão coletiva, o dissidente Alemão Zenker. Em um espaço de 180 metros quadrados seria uma garagem como outra qualquer na cidade de Garibaldi/RS, Terra dos Espumantes, não fosse ali reduto amador do auto didata viticultor Eduardo Zenker (não é enólogo) que produz de 4 a 5 mil garrafas de vinhos por ano. Um pequeno laboratório enológico de experimentos e alquimias onde surgem vinhos tranquilos e espumantes com a bandeira da diversidade. Utiliza diversas castas, métodos poucos convencionais, alguns defendidos como ancestrais, e recipientes de enjambre como tanques de fermentação, além das tradicionais barricas, ânforas e pupitres, todos de segunda mão. A vinícola de garagem Arte da Vinha ou Vinhas da Loucura (nome original do seu DNA) abre o capítulo dos vinhos brasileiros do recente Guia Descorchados 2017®, na página 476 – por ordem alfabética. dissidente3 Sim, o cara que faz vinho desde o início dos anos 90 na garagem de casa, compra majoritariamente uvas de amigos – apenas 1,2 hectares são de vinhedo próprio, defende o vinho natural sem conservantes, produz pequenas tiragens de 200 a 500 vasilhames de cada um dos seus filhos de nomes únicos: Alma Penada, Suvaco de Anjo, Benedito, Pinoto, Cárico, Lúdico, Espírito Pacômio, Inusitado, Óxi, Bruta Bestia, Menestrel, Sui Generis Brasilis, Equinócio, Bastardos… tem seu trabalho divulgado no maior guia da América do Sul (de visibilidade mundial). No mesmo guia estão Miolo, Valduga, Guatambu, Cave Geisse, dentre outros… só gente do primeiro escalão da vitivinicultura profissional. Pois bem, no último dia 07/06/17, a Polícia Civil de Garibaldi aprendeu amostras, estoque, equipamentos e produtos de fabricação que foram encaminhados para o Laboratório de Referência Enológica do Estado do Rio Grande do Sul para análises químicas. A análise deve responder se esses produtos atendem aos padrões de qualidade e identidade dos vinhos e espumantes estabelecidos na legislação vigente. Óbvio que não atende aos padrões, se atender temos um milagreiro no meio dos vinhos naturais! Em recente matéria publicada em 03/06/17, no jornal Pioneiro® de Caxias do Sul/RS  o próprio Zenker alerta ao público sua ideologia DISSIDENTE. Reproduzo parte da matéria…

“O processo é totalmente artesanal. Para saber se um vinho está pronto ou não, Zenker recorre a um único parâmetro: o próprio paladar. Ele vai provando as bebidas de maneira periódica até considerar que elas estão boas. Quando chegam ao ponto ideal, as garrafas recebem o rótulo e são destinadas ao consumo. Com base nesse método, há vinhos com quase 10 anos de idade que seguem repousando na cave, já que, na percepção do produtor, ainda não estão o suficientemente maduros. Eu não funciono como uma indústria, que determina que o vinho fique um período determinado em repouso. Eu trabalho cada vinho como um caso diferente. Há casos de vinhos que permanecem um ano no tanque, mais dois na barrica e mais meio ano na garrafa. Tampouco são feitas análises sobre nível de acidez e outros indicadores ou modificações na temperatura ambiente. Em uma era em que o digital baseia as ações do setor vitivinícola, Zenker segue por um caminho analógico. A escolha é por trabalhar com o resgate de métodos de vinificação que foram deixados de lado devido ao avanço tecnológico e, sobretudo, deixar que a uva aja por conta própria. Eu não mexo em nada. Quero ter um resultado com a expressão pura da uva. O próprio vinho é que se faz – justifica.

A minha racionalidade dos fatos. É certo de que a repercussão positiva nas redes sociais e no público cult não significava ameaça, era apenas um “louco” que fazia fermentado de uvas, meia dúzia de “eno grilo” bebia, alguns mal humorados desfavoráveis a indústria do vinho “catchup” o cultuava em pequenos nichos como resistente ao sistema. Estamos falando de 0,05%.  Dane-se eles, assim imagino agem os produtores regulamentados do segmento – principalmente os grandes e médios que são os mais afetados pelo sistema. O problema é que estas vinícolas de porte gastam fortunas em publicidade tradicional, que pesa no orçamento e não garante fidelidade, pelo contrário o público massivo é infiel, além de ter que conviver com um bando de puxa-saco e sangue suga da imprensa especializada que repercute por obrigação mas não toma em casa e não divulga aos amigos quando tem que pagar. É um fingimento só. Em nichos ocorre a real fidelização, vai além da sociabilização do vinho, se toma pra si a causa da cultura do vinho. De repente um tal de Alemão Zenker que posta seus vinhos no Facebook bem pobrezinho (atualmente tem um site organizado), conta (contava)com 2 ou 3 likes de críticos naturebas, na simplicidade de sua garagem de bermuda de surf e Crocs®, pá!… aparece no Globo Repórter, publicidade abrangente e gratuita, como o transgressor garagista de Garibaldi, a “Terra dos Espumantes”. Isso não pode, é uma afronta a quem tá lá com vários boletos e e-mails de enquadre sua empresa e seu produto na normatização x-y-z com prazo limitado senão toma-lhe multa. E na boa, quem reclama tem a sua razão, o cara não recolhe imposto algum, se resolver limpar determinado vasilhame com soda cáustica, sorte se os “bichinhos” da fermentação tipo lactobacilos vivos limparem o negócio por conta própria pois para a “nossa” segurança os apreciadores de vinho artesanal informal essa é a única chance.

Mas peraí, precisava de polícia!? O Zenker foi denunciado por gente do setor vitivinícola – clandestinidade. A Globo colocou em rede nacional um louco limpando o gargalo de uma garrafa de espumante com uma bucha de papel toalha. GE-ZUIS!!! Isso foi em 18/11/2016. Só agora, 7 meses depois, a vinícola Arte da Vinha recebe em sua garagem a civil com o subliminar recado: te recolhe a tua insignificância seu desaforado, ou volta pagando boleto. Estou triste pelo Alemão, sequer o conheço. Eu sinto simpatia por ele, faz algum dinheiro com o que ama, manufatura autentica, autodidata, vive da fermentação empírica, atinge um público autentico, não tem puxa-saco e sangue suga na folha de pagamento, que alívio ao caráter, vive do vinho caseiro. Só que a partir de agora não dormirá mais em paz. O vinho o quer, mas Garibaldi não o quer. O problema é sua localização. Vá para Passo de Torres/SC, atravessa o Manpituba estarás a 2  minutos da fronteira com o Rio Grande do Sul, monte lá uma nova garagem na segura fronteira, suficientemente longe do ego da Terra dos Espumantes. Na sua loucura habitual crie por lá a Terra dos Expumantes, ninguém o afrontará, excentricidade funciona nos arredores. Tudo voltará ao normal, os grandes continuarão sua jornada pela massificação necessária e justa sem a indigesta presença de um ou outro visitante que chega a cidade e pergunta onde fica “aquele cara da garagem” do Globo Repórter? Se isto significar uma derrota, será uma pena perdê-lo. Seu DISSIDENTE 2014 estava delicioso e saudável. Falei com meu piá que seu vinho foi preso. Ele me deu um carrinho para ilustrar a foto. As crianças são autenticas, e como é bonito o autêntico. Não desista!

Aos denunciantes imperativo a óptica de que a lei os respalda, legítimo pela preservação dos deveres iguais, da geração de impostos, de empregos, da fluência formal da cadeia produtiva, do esforço e trabalho reto e digno que vem lá de traz com os primeiros imigrantes na labuta do vinho. Tudo isso é justo, até o cruel método de denúncia por clandestinidade. Repulsivo a motivação: ego ferido. Caso Zenker venha a se restabelecer como agricultor familiar ou empreendedor familiar rural, legalizando a ARTE da VINHA, muito claro que seus preços terão acréscimos, seus custos comerão margem, sua visão de negócio domiciliar vai ter que coexistir com o Excel® e formulas de EBIT e EBITDA das vinícolas formais. A parte bacana disso tudo será observar o comportamento do consumidor artesanal e natural que respaldou as Vinhas da Loucura até aqui, essa é parte emocional de tudo isso, o viés do vinho que inicia-se contra a política oficial, a força da paixão de quem consome a alma do vinho como arte de manufatura, essa energia de nicho autentico é que pode lá na frente mostrar que o papel toalha não é crime.

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ARTE DA VINHA MOSCATO DE HAMBURGO 2014. Vinhedo Santa Lúcia de Bento Gonçalves/RS. Na vinificação o mosto ficou em contato com as cascas por um período de cinco dias. Engarrafado em março de 2015, com produção de 240 testemunhas. Na cor apresenta vermelho castanho água de pinhão, turvo e com suspensão de resíduos, textura de intermediária viscosidade, pequena formação de lágrimas, visual rústico e de acabamento raleio. No olfato mescla mamão com acerola, combinação típica das marcas de suco de soja e núcleo floral. No paladar seu melhor momento, inicia com o azedo da acerola, melancia já passando do ponto, physalis e pomelo – que gerou controversa por aqui. Os 12º de álcool oportuniza um degustar fácil e ligeiro. Bastante informal na estrutura magra, que agrada pela acidez equilibrada e um toque “verde” (taninos) que traz uma autenticidade ao Dissidente. Zenker sugere que o vinho revela algo que lembra batata doce assada com azedinha… sim, boa sacada! De fato tem um leve docinho no final de boca. Foi-se fácil a garrafa. Esteticamente é um vinho feio que dói, sem vaidades com uma alma discreta e de obediência a terra. Vai muito bem com um pinhão e fogão a lenha. Custa na faixa de R$70.


AVALIAÇÃO:

3 saca rolha

PREMISSAS:

P2|R4|E5

VALORIZAÇÃO:

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