O escuro do gosto

Fev/17.

As escolhas pessoais feitas no decorrer da vida são definidas por variáveis controladas, majoritariamente. No mundo do vinho não é diferente, são diversos os vieses que da uva transforma-se em vinho. Vasto são os estilos, uma verdadeira arte é a vinicultura, que proporciona diferentes olhares e a valorização de aspectos distintos, o real abstrato e o real concreto. As conclusões, oriundo desta conjectura, definem as escolhas e as preferências de cada um, o livre arbítrio do gosto. A indústria alimentícia da produção massiva sabe disso e precisa agradar ao grande publico que financiará o sistema de esteiras contínuas em ambientes à vácuo para dar vazão homogênea a grandes volumes. Engana-se que o menor preço é chave do negócio, não é, existe uma inteligência do comportamento do gosto, esse sim, a chave mestre. O livre arbítrio também é passível a estatística. Mensura-se, como uma ciência exata, qual é o gosto mais aceitável, menos agressivo, mais confortável, menos desafiador. Tenha certeza absoluta que chega-se a este resultado conclusivo com margem de acerto estimada. Todas as grandes marcas de escala industrial precisam “doutrinar” seus consumidores garantindo reciprocidade ao gosto deste enorme coletivo que presa por um determinado padrão constante e imutável, onde o sintético é um recurso da garantia de padronização. O grand finale desta estratificação é a valorização “cega” das marcas, que representa-se na estética, no caso do vinho, nos rótulos. E quando, no universo do Baco, um dos elementos mais utilizados para ancorar as preferências deixa de existir por alguns minutos, enquanto apenas a bebida “nua” é o guia? Muito comum, alguém ser inesperadamente surpreendido de comer ou beber algo sem saber que ali estava inserido um veemente “não gosto” e inocentemente não esboçar nenhuma reação de contestação sem aquele condicionamento predefinido. O ser humano não gosta de ser contrariado, e quando o é, “enganado” por si próprio, reconhece mais facilmente a oportunidade de refletir a respeito de suas posições definitivas.

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Uma brincadeira propositiva: degustação as cegas. Reunimos 5 amigos em uma tarde de Sábado, apenas 4 desfrutaram a experiência líquida. O motorista da rodada conduziu o serviço.  O mais difícil foi reunir a quantidade de taças, mas deu tudo certo. Público heterogêneo o que amplia o divertimento e o aprendizado humano. Sim, desafiar o sensorial é um grande desenvolvedor da capacidade humana de se auto ajustar. O tema foi o vinho brasileiro em contraponto ao maior “carro chefe” e “tubarão branco” do mercado brasileiro, o Casillero del Diablo®. Carro chefe pois tem enorme liderança em capilaridade, vendas, penetração em segmentos e classes de consumo e padronização do gosto com diversos varietais. É um sucesso mundial da indústria de inteligência de comportamento do vinho. A pergunta que fizemos é? As cegas, sem a influência dos rótulos esta “inteligência” perde força, ou não, exatamente o contrário, reforça o seu sucesso. Comum escutarmos de que o vinho brasileiro melhorou, desenvolve-se com consciência, mas… não se compara aos importados, inclusive aos mais próximos do Mercosul. É um chavão. Destina-se orçamento para combater esta posição definitiva com publicidade direcionada, mas o consumo do vinho nacional continua pífio, menos de 2litros/per capita.

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Selecionamos 5 vinhos entre R$ 40 e R$50 da casta Merlot. Um importado e quatro representantes da vitivinicultura gaúcha que representa 97% da produção nacional. Ampliou-se o espectro com exemplares de Mariana Pimentel (região Metropolitana de POA), Candiota (Campanha Gaúcha), Vacaria (Campos de Cima da Serra) e Encruzilhada do Sul (Serra do Sudeste). A regra da degustação era simples, eleger a preferência pessoal, do que mais gostou para o que menos gostou. Para cada classificação de 1 a 5 uma pontuação atrelada: 10pts, 7pts, 5pts, 3pts, 1pt. Nomeia-se o vinho destaque o que na somatória obtém a maior pontuação consolidada.

1º) Merlot de Mariana 2012. Parceria de Jorge Ducati e Vilmar Bettú. (30 pts) eleito individualmente, o melhor, por 2 participantes.

2º) Casillero del Diablo 2015. (29 pts) eleito individualmente, o melhor, por 1 participante.

3º) Miolo Reserva 2015. (23 pts) eleito individualmente, o melhor, por 1 participante.

4º) Casa Venturini 2014. (12 pts)

5º) Lidio Carraro Agnus 2014. (11 pts)

Concluímos que a vida é curta, como é bom reunirmos os amigos, falarmos de coisas que elevam a alma, as crianças observando e construindo caráter. Ah sim… e o vinho? Parabéns a todos os Merlot’s, eles são o meio e não o fim. O protagonismo é o livre arbítrio, a liberdade de escolha, se auto ajustar nas preferenciais pessoais, o maior vencedor foi a experiência sensorial, o enriquecimento humano. Até nisso o vinho é admirável, no escuro do gosto!

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