Orchid Wine

Set/16.

Na época adolescente, retornei do cinema em 1989 e liguei da linha fixa (na época um luxo) para um dos meus amigos que desistiu de ir de última hora a sessão matinê e disse: “Tu é louco não ter ido ver Orquídea Selvagem!”. Eu, completamente hipnotizado com tudo que acabara de ver. Com a “serenidade” de seus 2 anos mais velho, me disse: “É que tu não viu ainda 9 semanas e meia de amor, não é?”. Sim, eu não tinha visto, meses depois eu dei a mão a palmatória, Mickey Rourke e Kim Basinger tornaram-se meus ídolos sexy e acho que de todos os guris da nossa turma. Pois bem, a Era dos Ventos 2011, de rótulo novo, me lembrou deste peculiar momento de filmes “inocentes” e eróticos da década de 90, onde comparado ao mundo atual, as coisas eram mais discretas, subliminares e o mundo analógico. Experimentei o Peverella 2010 (rótulo antigo) no Aprazível em Abril de 2014 pela primeira vez, o descrevi assim… ” Corpo natural. Lembra a Playboy da década de 80. Tivemos uma sorte danada de beber este Peverella substituindo um Armagnac, finalizando a refeição. Definitivamente é um vinho para harmonizar com absolutamente nada. É um vinho egoísta. Você não pode tirar a atenção dele. Meu cunhado que não é um consumidor cotidiano, o definiu como: “não é para qualquer um e para qualquer fim”. Simplificando, você tem que interpretá-lo. Pelo seu posicionamento de preço há inúmeras opções que proporcionarão mais prazer e confiança. Humildemente reconheço que diante da obra maior da Era dos Ventos recordo-me da visita ao D’Orsay. Diante renomadas obras me esforcei para compreender sem conhecimento técnico apenas com paixão. Concluí que mesmo com posses jamais pagaria o preço estimado. Fiquei inseguro se eu que sou emocionalmente limitado ou a obra que é valorizada por exatamente confundir a razão. Precisarei um novo momento com este Peverella. Tenho certeza que virá. É inquestionável que se trata de um vinho intelectual, é arte, transcende, prudente cautela nesta primeira abordagem.”

Agora, em Setembro de 2016, nos reencontramos!

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ERA DOS VENTOS PEVERELLA 2011. Zanini imprime este poema no contra-rótulo. “Se por um instante perceberes, que atua alma, não cabe mais em ti, Sonha, grita, chora. Deseja o céu, todo. Come a lua, Beija todos as estrelas, Bebe o Sol, Voa, E nesta valsa descompenssada. Entrarás no ventre úbere da vinha, E conceberás o mais eterno amor. É então renascerá a criança que um dia nunca de ti partiu.” Bento Gonçalves/RS. São produzidas menos de 1.000 vasilhames por safra. A rara e escassa Peverella é vinificada com longo tempo de maceração e sem filtragem. O rótulo se guarda, tal a lindeza desta ruiva elegante e exótica flertando o pássaro em garrafa borgonhesa, diferentemente das safras bordalesas que antecederam-na. Na taça a cor laranja é vibrante e singular (jerez amontillado), poderia muito bem tingir um orquidário de espécies Ascocentrum ou Cattleya. Textura limpa, totalmente fluída, pés de bailarina, corpo natural, nenhuma aderência a taça, liso como um drible maroto. Lágrimas ligeiras e espaçadas. Olfato majoritariamente oxidado, canela, damasco e pomelo.  O cheiro de gás GLP sentido na safra 2010 não apareceu na 2011, que é nitidamente mais coletivo e menos individualista. Na boca é metalizado e condimentado no açafrão. Minha esposa o achou com gosto defumado (lombo). Inquestionável fundo de boca de resina vegetal e bálsamos. A acidez não aparece, os 11,5º de álcool  imprimem o valor de uma época analógica da tecnologia (muito bem vindo). Julgo ser uma safra menos intelectual, tão arte quanto, entretanto mais acessível e principalmente, simpático! Custa na faixa de R$150, um legítimo Orange Wine nacional, vale o quanto pesa.

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AVALIAÇÃO:

5 saca rolha

PREMISSAS:

P3|R5|E5

VALORIZAÇÃO:

1

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