Questão de safra

Out/17.

Até que ponto o homem na cantina consegue padronizar o vinho safra após safra? A resposta é, muito. O vinho apesar da visão de produto da natureza, recomendável por cardiologistas, testemunho do desenvolvimento da humanidade, é envolvido dos mesmos artifícios técnicos e pressões capitalistas que qualquer outro alimento. O consumidor quando valida um produto manda um recado a empresa que o produziu, mantenha-o assim! No mundo do vinho não é diferente. A vinícolas (negócios) precisam ter giro, produtos de prateleira validados que garantam um comportamento de compra e recompra, garantia de que no outro ano a “receita de bolo” já está pronta e seus consumidores no automático. Majoritariamente a grande fatia de consumidores vai no automático após validar um produto ou serviço. Desta combinação surgem marcas popularizadas, ou produtos globalizados independentemente do segmento. Nos espumantes, por exemplo, pensou em Champagne no segmento premium, muito provavelmente 9 entre 10 consumidores de prateleira vão citar a Veuve Cliquot de entrada, não apenas pelo marketing mas também pela “receita de bolo”. Seu produto carro chefe é um blend de vinhos de safras diversas que nunca muda. Segue um padrão de textura, estética e sensorial que agrada o massivo. Em todo o mundo há exemplos assim, na indústria nacional não é diferente. Este fator não desvaloriza o produto, absolutamente, mas deixa em segundo plano, propositalmente, um aspecto ímpar – os vestígios da natureza no vinho. Identificar as “digitais” daquele ano safrado no vinho é uma descoberta, um desnudar. Isso não significa que um vinho safrado é melhor ou pior do que um vinho de corte de safras. São propostas diferentes. Tive a oportunidade de colocar lado a lado três safras do espumante Nature da Vinícola Guatambu que entrou no mercado de vinhos com ponta afiada, ano após ano tem intensificado o zelo pela qualidade, experimentando, inovando, vai ganhando lastro.

guatambu2

O espocar das safras 2012, 2013, 2014, da esquerda para a direita. Incrível a variação de cor e textura! Mudança sutil na rotulagem. Na 2012 a safra vem impressa no rótulo, 2013 e 14 na faixa que envolve o gargalo. No contra-rotulo o 2012 informa o numero de garrafas produzidas, foram 2.800 sendo a degustada a de nº 139. Nas demais versões esta informação é suprimida. No site é possível ver a tiragem, 3.500 vasilhames nas safras seguintes. Todas as três versões são 100% Chardonnay de vinhedo próprio em Dom Pedrito/RS, método tradicional, estilo Nature com 18 meses sob contato com as leveduras. O enólogo é Alejandro Cardozo que assessora diversas vinícolas brasileiras, especialista em espumantes. Vamos as safras… o custo médio fica entre R$65 e R$80 conforme o ponto de venda.

guatambu12

2012… Disparado o melhor da vertical. Ás cegas o 2013 passaria tranquilamente como sendo o 2012, pela cor amarelo dourado, mas não. O 2012 é menos carregado, apresenta cor amarelo palha, tênue, textura fina, o perlage mais duradouro entre os exemplares, aromas de frutas brancas, leve tostado, acidez contagiante, seco na medida, prima pelo equilíbrio entre sabor e estrutura. Suporta tranquilamente mais 2 anos no apogeu. Belo espumante nature!


AVALIAÇÃO:

3 saca rolha

PREMISSAS:

P2|R4|E3


guatambu13

2013… nitidamente com toques de dulçor ampliado em relação aos demais. A cor amarelo dourado, mas carregado sintetiza a maturação mais elevada, textura concentrada, perlage de boa formação com menos intensidade e persistência. O mais aromático dos três exemplares elevado pela nota de baunilha que torna o espumante mais sério. Falta-lhe vivacidade, refrescância, é a safra que vai ficando para trás na reposição dos copos. Gostoso, bem feito, mas sem impacto. Já pronto para consumo. Na relação custo x benefício está a um passo atrás.


AVALIAÇÃO:

2 saca rolha

PREMISSAS:

P2|R3|E2


guatambu14

2014… inquietude pura! Nervoso, parece querer contrariar. Lembra na textura um método ancestral pela turbidez. Acidez latente, que instiga as papilas com efervescência contínua. De cor amarelo citrino quase caldo de cana extraído fresco. Jovialidade compatível em tudo, desde a textura, sabor, intensidade e personalidade. O gole é penetrante mas efêmero, vai ganhar estrutura com mais 2 ou 3 anos. Perfil completamente diferente dos anteriores, a Chardonnay provocativa, talvez pela menor intensidade de Sol buscou no solo mais profundo a compensação. Bom potencial, carece de equilíbrio. Ideal para harmonizar com peixes frescos in natura.


AVALIAÇÃO:

3 saca rolha

PREMISSAS:

P2|R3|E3


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