De fazer rancho

Mar/16.

O posicionamento do vinho nacional é um certo dilema. Os espumantes são sem sombra de dúvidas o que de mais diferenciado o Brasil pode produzir, pontual evidencia foi a inclusão dos espumantes brasileiros no prestigiado Guia Descorchados®. Os tintos são os mais comercializados mesmo em estados onde o calor impera em mais de 2/3 dos meses do ano. Os brancos são majoritariamente colocados de lado no momento da escolha. A prova irrefutável observa-se nos restaurantes de frutos do mar, comum a maioria das mesas que consomem vinhos harmonizarem com tintos estruturados e tânicos – desconsidero aqui um leve Pinot Noir por exemplo. O branco é o patinho feio do consumo nacional. O estilo rosé nem se fala, atualmente perde em preferência até do recente fenômeno comercial dos vinhos laranjas. Defendo de que é necessário a experimentação da mesma forma que a educação alimentar de uma criança. O problema, é que o adulto além da tendência a ideias fixas realiza a inevitável comparação tupiniquim. O vinho branco é aproximadamente 20% mais barato que um tinto da mesma categoria, ao invés de potencializa-lo é comum o efeito contrário – marginalizá-lo como se mais barato está, pior é. Bom, então equivale?! Aí o ponto de venda alega de que não vende (mesmo).  Um verdadeiro embaraço. Potencializado também pelas decisões no gabinete dos que elegem (entalam) a Merlot como a uva nacional apoiado por um comitê de “publicitários”. Fator determinante depois da experimentação é a contundente qualidade média ofertada e neste quesito bons produtores tem caprichado com foco minucioso nos brancos, casos da Pizzato, Valduga, Vila Francioni e a pequena Maximo Boschi.

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 MAXIMO BOSCHI RESERVA CHARDONNAY 2008. Relembre o post do Merlot aqui. Conceito único no Brasil em lançar vinhos de guarda apenas no apogeu, desta vez na vinificação em branco. Apenas 1.350 garrafas produzidas! Daniel Dalla Vale eleito em 2011 o melhor (também o mais jovem) enólogo nacional pela Associação Brasileira de Enologia (ABE) e Renato Savaris ex-colega Casa Valduga são os sócios deste projeto minimalista em Bento Gonçalves/RS. As uvas são adquiridas da propriedade Terragnolo, não são próprias. Apenas lotes específicos de qualidade aferida são comprados. Esta é a terceira safra do Chardonnay, anteriormente em 2004 e 2007. Amadurece em barricas de carvalho por 8 meses e mais 14 meses em repouso na garrafa. O rótulo propositalmente envelhecido é um charme em todas os produtos. Na taça apresenta amarelo dourado palha levemente opaco. Untuoso, lágrimas delicadas e de média intensidade. Os aromas florais são impactantes: frésia e jasmin – delicado e selvagem. Sensacional a persistência aromática taça após taça!  Seduzido pelos aromas o palato é confortado por notas lácteas e um toque de melão espanhol. O carvalho está presente mas aporta exclusivamente sofisticação. Estilo de branco barricado com elegância e frescor apesar de 8 anos de vida. Acidez moderada, o suficiente para limpar a boca. Apreciá-lo solitariamente é suficiente, porém tem vocação gastronômica para pratos temperados com especiarias doces, queijos adocicados e vegetais na manteiga. Voilá! Há relatos de que Maximo Boschi caiu no gosto de Claude Troigros – incluído na carta de seus restaurantes. Comprei este Chardonnay para experimentar, paixão a primeira vista, voltei a Vinhos e Sabores dos amigos Eliseu e Augusto e fiz um rancho(*). Excelente vinho nacional que merece ser adegado por mais 3 a 4 anos como prova da capacidade do branco em surpreender os mais céticos. Custou na época R$46, uma barganha! Esta safra está praticamente esgotada nos meios tradicionais.

(*)Dicionário de Porto-Alegrês®: Luís Augusto Fischer. Significado de Rancho: “Fazer Rancho”, aqui nesta cidade, designa o ato de fazer compras de provisões, fazer compras da semana ou do mês, no súper, talvez por analogia remota com fazer rancho-moradia mesmo, ou, mais provável, a partir da gíria militar, que chama “rancho” a comida e/ou refeitório da tropa. Familiarmente, também se diz “fazer rancho” de outros objetos, por exemplo quando o filho se excedeu e “fez um rancho” de roupas.


AVALIAÇÃO:

5 saca rolha

PREMISSAS:

P1|R6|E4

VALORIZAÇÃO:

2

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