Releitura Oval

Maio/17.

0 Atlas do Vinho, seja qual for a origem do idioma, do escritor, da linha do tempo, estará lá a ânfora de barro descrita neste denso livro como sendo utensílio essencial para o armazenamento do fermentado de uvas à milhares de anos. As uvas eram acondicionadas e maceradas em ânforas para fermentação, a ação humana limitava-se a mexer o conteúdo para facilitar a oxigenação. O mundo do vinho progrediu da Idade Média a modernidade contemporânea de forma irreversível na padronização e melhoria contínua de conservação e higiene, acompanhamento a própria evolução da humanidade. Um enorme avanço na concepção do vinho como elemento da cadeia alimentar em diversas culturas. Neste processo de consolidação, a indústria avançou para a consolidação do inox (aço)e do carvalho (madeira) como principais agentes de transformação do fermentado de uvas, tornando massivo o uso destes recursos técnicos como principal mecanismo de produção de vinhos em todo o mundo. Neste movimento definitivo e necessário, sempre houve lugar para exceções, alguns poucos produtores espalhados pelo planeta que mantiveram suas ideias e convicções inalteradas de geração para geração mantendo técnicas milenares intactas, dentre estas, as ânforas de barro e de cimento. Josko Gravner, no Friuli é cultuado por não evoluir, por ser ortodoxo no natural ancestral. Algumas regiões mantém a legítima tradição sem se importar, no Alentejo o vinho de talha é centenário. O berço deste mundo outside está na Geórgia. Não mais do que de repente começaram a surgir releituras de enólogos a procura em remexer no guarda roupa de suas avós atrás de velhos e bem construídos adornos que pudessem servir de novas visões e inspirações. No mundo da moda os ciclos são constantes, o que foi novo tornou-se antigo um dia, o retorno em releitura é um renascer. No mundo do vinho o fenômeno foi idêntico. A oferta por ovos de cimento privilegiando o formato ovalado das antigas ânforas tornou-se “blue chips” no mercado vitivinícola. Uma onda de enólogos que almejam experimentar a inerte e isolante recipiente oval. Um dos precursores comerciais no Novo Mundo foi Marcelo Retamal da chilena De Martino, surge o Viejas Tinajas, na safra 2011.

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DE MARTINO VIEJAS TINAJAS MUSCAT 2013. Valle del Itata/Chile. A Moscatel de Alexandria (Muscat) provenientes de vinhas velhas de 1975, cultivadas organicamente, na zona de Trehuaco. Após 15 dias em maceração carbônica, o mosto fermentou por 6 meses em ânforas centenárias de argila sem controle de temperatura. As cascas foram separadas do vinho, decantando por mais 6 meses; engarrafado sem filtração. Foi aerado por 1 horas antes de servi-lo. Na taça os olhos entram em êxtase diante a cor âmbar hipnótica. Textura rústica levemente turva, de média densidade na viscosidade, formação de arcos e pernas curtas. No olfato é floral, laranja cozida, azeitona verde. No palato atinge sua melhor virtude, untuoso e vibrante. Fecha-se os olhos e a sensação é de pescaria na beira do mar com um cesto de bergamotas ao lado deixando o Sol a vontade para fazer a companhia. O vinhedo localiza-se a pouco mais de 17km do oceano Pacífico. Grande volume de boca, profundidade de elementos que remetem a uma infusão de especiarias e temperos, chá de physalis com torta de limão. Impressiona pelo harmonia entre complexidade, acidez e corpo – arrebata com álcool na medida, 12,5º. Enorme acerto de Marcelo Retamal, merecido o destaque de público e crítica. Custa na faixa de R$140. Está excelente hoje com mais 5 anos pela frente ganhando complexidade.


AVALIAÇÃO:

5 saca rolha

PREMISSAS:

P3|R5|E5

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