Vinho de Moradia

Ago/17.

Viamão, município da região metropolitana de Porto Alegre. Distante 25km da capital gaúcha, a sétima cidade mais populosa do estado em seu concentrado centro urbano, porém com uma grande área rural com mananciais de água não poluída e exuberante vida selvagem que “isola” o interior da área urbana. Relevo com aclives de até 110 metros de altitude, clima subtropical, com verões quentes e invernos frios. Improvável localização para a cultura da vitis vinífera até a chegada do casal Nenel e Sundari. Em 2011 começaram por paixão testes para a elaboração e produção artesanal de vinhos na zona rural de Viamão onde residem no sítio simples e acolhedor. Para chegar lá escolhemos o a versão amadora do (pior) trajeto, o Beco da Servidão deve ter sido.

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Valeu a experiência em se perder, bater palmas em vários portões onde quem atende primeiro são os cachorros, os guardiões de sítios e moradias. Traçamos   inocentemente a rota mais remota possível, onde o celular não pega, o solavanco nos amortecedores e molas torna-se parte do enredo e as vias vicinais são todas iguais para quem é “estrangeiro”. Através da rota profissional o trajeto duraria 20 minutos no máximo a partir da via asfaltada, acredito que tenhamos levado quase 2 horas sendo algumas em círculos. Chegamos com muita sorte! O Nenel se “esconde” através de um portão cadeado e uma alameda de vegetação natural de uns 100 metros que impossibilita palmas e gritos para avisar a chegada de visita. Graças a um barzinho no outro lado da rua conseguimos que avisassem-no pois as nossas operadoras de telefonia  eram inofensivas ao propósito. Chegamos a Adega Solar!

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A vista é de uma moradia daquelas que o único capricho é o seu próprio conforto, nada de requintes, a natureza ao redor e o simples em cada detalhe. Assim conhecemos o Carlos Manuel Dias, o Nenel, que agora a relação com Elizabeth Braz, a Sundari, juntos iniciaram a Adega, é de ex-companheira. Conversamos por 1 hora tomando um chimarrão no galpão rosa que na parte superior serve de salão para receber eventos de grupo e na parte inferior é a vinícola. Conhecemos a história da região, a prospecção do solo, a evolução do vinhedo de 1 hectare em latada semiaberto (não fica no sítio e sim próximo), a vinificação que iniciou-se em pipas antigas. O local conserva história com vários utensílios de madeira, preparo artesanal do vinho, muitos de longa data e preservados, feitos com surpreendente engenharia – é uma volta no tempo. O nome Adega Solar vem de um dos conhecimentos adquiridos por Nenel, o prazer em construir relógios de Sol. O acesso a área de produção e armazenamento é uma porta no chão.

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A temperatura cai de 5 a 7 graus lá embaixo e a visão lembra muito aquelas escadarias imaginárias para acessar o céu em um ritual de passagem. A rusticidade é espontânea, cada canto tem um pingo de suor, uma história a se contar, uma lembrança a recordar. O cheiro do vinho surge, no reboco, nas pedras, na madeira, nos vasilhames, e fundamentalmente na manufatura de tudo, como se estivesse ali folheando um livro de páginas curtidas e envelhecidas pelo manuseio, você percebe que está tocando nas digitais da Adega Solar.

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Ao lado direito de quem desce a escada a silhueta da porta do tesouro, ali repousam os vinhos do Nenel. Podemos entrar? Claro, o melhor está aqui. Você olha, olha e olha de novo, tudo muito simples e ao mesmo tempo autêntico, se encanta pelo sonho que se sonhou ali. O amor em cada palavra dita para explicar como as seções da adega foram montadas evitando pressionar indevidamente o empilhar das garrafas. As teias de aranha, a brita trincando, o cheiro, a umidade, o ritual de escolha das garrafas que você quer levar para casa, vira-se criança!nenel4

Parece ser o fim da expedição. Bate uma tristeza por não querer sair dali, vontade de puxar um mochinho e conversar mais, entender que pilha é esta, e aquela? Você se toca que está num bunker na zona rural de Viamão, improvável local, olho no olho com o vinho daquela região – sensacional! Levamos algumas garrafas, não foi difícil nos convencer. Foi um prazer, transcende o vinho, estamos falando do Ser Humano, alguém que você conhece em minutos e parece ser amigo de anos, o papo é construtivo, o respeito, a valorização do outro, a harmonia que o vinho proporciona a quem se envolve com ele. Precisávamos voltar para nossas esposas e filhos em um almoço de Sábado na região urbana. Ao passar pelo portão antes cadeado e distante, foi possível entender de que Nenel não se esconde, nós que nos escondemos dele. Obrigado pela hospitalidade, pelo aprendizado, por partilhar, até a próxima Adega Solar.alma12

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a) ADEGA SOLAR ALMA TANNAT RESERVA 2013. Foram produzidos 1.2oo vasilhames. Safra considerada excepcional no vinhedo pelo adequando estágio de maturação da vinha, com estações bem definidas e frutos sadios. Breve passagem por madeira. Na taça apresenta vermelho púrpura, concentração de cor, arcos bem formados e lágrimas de boa densidade. Aromas primários de frutado macerado, uva passa, schimier de amoras, certo vegetal, cânfora. No paladar é seco, sem contornos, taninos atuantes, fruta roxa macerada, crosta de molho de tomate quase queimando, pimenta do reino em profusão, corpo médio. Os 14,5º de álcool o deixam excentricamente quente no palato, precisaria integrar para melhorar. Não espere sutilezas ou adornos, um vinho de batalha, que deveria vir envasado em um cantil. Longe do estilo comercial, do vinhateiro outstanding, do natureba, é a chance de beber de forma primitiva – e de verdade, isso tem valor. Custa na faixa inferior a R$50.


AVALIAÇÃO:

3 saca rolha

PREMISSAS:

P1|R4|E3

VALORIZAÇÃO:

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a) ADEGA SOLAR ALMA CABERNET SAUVIGNON RESERVA 2013. Foram produzidos 75o vasilhames. Safra considerada excepcional no vinhedo pelo adequando estágio de maturação da vinha, com estações bem definidas e frutos sadios. Breve passagem por madeira. Na taça apresenta vermelho violáceo bastante escuro, concentração de cor, arcos bem formados e lágrimas de boa densidade, difere do Tannat por ter maior viscosidade. Aromas vegetais (sensação de verde), grama cortada em decomposição, fruta vermelha macerada. No paladar é seco, sem contornos, taninos em equilíbrio, bastante vegetal, amoras em destaque, corpo magro e ligeiro. Os 13,3 de álcool tornam-no mais acessível. Custa na faixa inferior a R$50.


AVALIAÇÃO:

2 saca rolha

PREMISSAS:

P1|R4|E2

VALORIZAÇÃO:

vasilhames2

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